Dançar para quê?

O que pode a dança em meio ao cataclismo? O que dançar para adiar o fim do mundo?
Foto Gonçalo Delgado/Global Imagens
  1. Estas duas questões repousam, inelutáveis, desde o início de 2022, num naquinho de papel que transporto comigo no meu notebook. O interregno de responsividade é-me apaziguado pelas proposições pedagógicas freirianas que nos relembram que é muito mais importante elaborar perguntas do que dar respostas; e que, efetivamente, toda a pergunta é, no âmbito discursivo e literário, um ato contextual. Todo o questionamento é um recorte contingencial e desmontável em múltiplas camadas, pelo que, no mínimo, fazer perguntas à própria pergunta, já deve ocupar, per si, um infolgável exercício analítico. Bom, eu dei um salto referencial, mas toda a trajetória filosófica (ocidental) esteve aí desde o elogio à ignorância do método socrático à dúvida hiperbólica cartesiana que privilegiava os sujeitos enquanto atores capazes de deslocar e alargar os seus tetos de subjectividades para alcançar novos caminhos pensantes, e produzir, com efeito, novas formas de ser e estar.                                                             
                                                                                  
  2. Veio-me agora à cabeça um artigo da crítica e pesquisadora de dança Helena Katz “o corpo como mídia do seu tempo” que nos propõe reconhecer uma dança como sendo contemporânea, genealogicamente falando, através “da pergunta que o corpo faz “. Descodificar, interpretar, percecionar as interrogações é tarefa, muitas vezes árdua, do espectador. Sem dizer que esta ideia de corpo enquanto mídia (meio) do seu tempo, como dispositivo político e constantemente comunicacional, liberto de um tecnicismo e de uma armadura estética é absolutamente interessante. Por isso, diferentes artistas com idiossincrasias, traços biopsíquicos, trajectórias e experimentações e acessos diferentes, produzem questões diferentes. E só por isso que eu concordo com Gombrich quando ele diz que “não existe realmente aquilo que se dá o nome de Arte. Existem Artistas”.                                                                                                                                                                
  3. Quem não se lembra da famosa entrevista da Nina Simone em que ela nos diz “o artista é o reflexo dos tempos”? É na mesma vibe que o leitmotiv do prólogo d’O Espiritual na Arte de Kandinsky que enceta dizendo que “cada obra de arte é filha do seu tempo e muitas vezes mãe dos nossos sentimentos, cada época de uma civilização produz uma arte que lhe é própria…” E esta relação espiralada entre produção artística e formas de vida é levada bem longe no monólogo do personagem de John Cusack, Rob Gordon, no filme Alta Fidelidade de 2000, quando ele quebra a quarta parede e nos diz “ O que veio primeiro a música ou a infelicidade? As pessoas temem que as crianças brinquem com armas, ou assistam a filmes violentos, ou que algum tipo de cultura de violência permaneça, mas ninguém se preocupa que elas escutem milhares de música a respeito de dor, sofrimento, falta de amor, perda. Será que eu só escuto música porque estou infeliz, ou estou infeliz porque escuto música?”                                                                                                                                                                 
  4. Isto tudo para pensarmos que não é possível descolar um fazer artístico do seu espaço-tempo, e olhá-lo como um extrato que independe desses marcadores. No nosso atual modus vivendi, na qual a arte se tornou um capital de consumo cultural de uma indústria necroliberal, explorada no limite da reprodutibilidade técnica (Walter Benjamin), numa sociedade “ do cansaço” e paliativa (Beyoug Chull) completamente infodémica e telanica, embrenhada num Brutalismo maquinário (Achille Mbembe), que subverte as subjectividades em metadados comerciáveis, num frenesim espetacularista (Debord) e obsolescente, cabe a nós todos, Artistas e Não-Artistas, regressar ao exercício das questões. Quais artes estão em disputa? Quais artes estão visibilizadas e quais estão em desfoque? De que artes nos nutrimos? Qual é o papel do artista e da arte na sociedade?                                                                                                                                                       
  5. Isto foi para olharmos para a pergunta lançada no título como igualmente problematizante e problematizável, já que precisamos de vigiar em que medida estamos a atribuir uma função utilitarista ou proposital como um factor si ne qua non universalizante, reproduzindo e perpetuando uma lógica colonial de categorizar e hierarquizar práticas e saberes culturais. Diferentes danças se prestam a diferentes fins. Ponto. Diferentes corpos se movem com diferentes vontades. Portanto, não é esse a via da questão. É muito mais na linha a qual o Adorno se refere quando diz que “Escrever um poema depois de Auschwitz é bárbaro e isto corrói também o conhecimento das razões pelas quais hoje é impossível escrever poemas”.

 

Com o bombas a desabar, dançar se torna uma grande questão. E também uma grande e importante resposta!

 

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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