Educar para se proteger

Artigo de opinião

Educar para se proteger

“Nenhuma criança nasce racista”. Esta frase sempre me tocou profundamente.

Quando decidimos vir morar em Portugal o meu maior medo era que os meus filhos sofressem na escola por causa do racismo. Se em nós dói e nos afeta emocionalmente, imaginem numa criança que ainda não conhece as maldades deste mundo.

Todos nós estamos a assistir o “boom” migratório em toda Europa, principalmente em Portugal, que está a ser a porta de entrada para os demais países do “velho mundo”.

E, apesar de já estarmos em pleno século XXI onde as mentalidades deveriam ser outras, a migração maciça tem trazido paralelamente consigo o aumento do racismo.

Não é preciso nem sair de casa para o sentir. Basta ter um telemóvel com acesso à internet em mãos. Todos os dias pelo menos um órgão de comunicação social português divulga uma notícia relacionada com ataques racistas que surgem acompanhadas de comentários extremamente preconceituosos e maioritariamente expressados por pessoas responsáveis pela alfabetização das gerações futuras.

Uma geração que já começou a ser corrompida de tal maneira que talvez nenhuma escola e ou igreja será capaz de descontinuar um ciclo que existe desde que mundo é mundo.

A mim dói até à alma quando os meus filhos se queixam de situações que acontecem na escola e que claramente são atitudes racistas que vêm dos colegas que nem sequer sabem o que dizem.

Recentemente um pai queixou-se no grupo de encarregados de educação que a sua filha chegou da escola aos prantos porque os colegas a tinham chamado de nomes por ser da etnia cigana.

Sabem quantos pais responderam a aquele pai que pelas suas palavras o sentimento nem era nem de revolta, mas sim de tristeza por ver a filha naquela situação? Apenas um, eu.

Sabem porquê? Porque não estamos habituados a lutar por uma causa se esta não afeta a nós ou aos nossos.

Não podemos determinar a forma como cada pai ou mãe educa o seu filho, mas podemos educar os nossos filhos para que saibam defender-se mentalmente quando situações como estas acontecem.

Tenho focado mais no meu filho por ser um menino mais “frágil”. A minha menina graças a Deus nasceu com uma personalidade forte e que dificilmente o que dizem sobre ela a abala.

Lembro-me dela chegar em casa e dizer que um menino lhe tinha dito que o seu cabelo parecia de uma palhaça. Sem sequer lhe perguntar como contornou a situação, ela disse que riu e foi procurar outros colegas para brincar.

Isto, porque os ensino que ninguém pode ter o poder de os fazer gostar menos de um determinado aspeto dos seus corpos e que quem os desrespeita não merece nem a sua atenção nem a sua amizade.

Lembro-me ainda de uma mãe cabo-verdiana desabafar, que quando a filha nasceu aqui em Portugal e viu que a pele era clarinha, suspirou de alívio porque tinha presenciado num parque uma situação de uma criança dizer à outra que ela podia juntar-se à brincadeira porque esta era mais “branquinha”.

Não a recrimino, ela é mãe e nenhuma mãe quer ver o filho sofrer.

Chegamos num ponto em que desejamos “mudar” a nossa genética para podermos enquadrar nos padrões que os outros pensam ser o “ideal”.

Infelizmente estamos numa selva em que já percebemos que o caminho para mudar mentalidades racistas ainda é MUITO LONGO e que a única alternativa é ensinar os nossos a se defenderem.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Denise Fernandes Teixeira

Denise Fernandes Teixeira

É esposa e mãe licenciada em marketing turístico e começou a sua carreira profissional como jornalista. Foi assessora de comunicação e marketing numa instituição pública, mas a sua verdadeira paixão é a investigação criminal. Hoje é uma emigrante que se prepara para mudar totalmente de área. A advocacia.

Outros artigos

Pode gostar também

Deixe um comentário

Follow Us