ELAS, as Vacas

É março, mês do teatro, da poesia e mês da Mulher! Ao parar para pensar num tema para a crónica deste mês, lembrei-me delas: as Vacas!

Chamar uma mulher de “vaca” não é ofensa, é elogio.

Várias culturas e religiões veneram certos animais e as suas representações. É assim desde o início dos tempos. É assim na Índia, onde a Vaca é considerada “mais pura” que os brâmanes, a casta mais elevada daquela sociedade, logo é sagrada, cuidada e tratada com toda a deferência. Animal robusto e forte, foi usado ao longo da história da humanidade, como um recurso muito útil para os trabalhos rurais mais pesados.

Mas eu tenho uma teoria diferente, sobre esta superioridade da Vaca. Nas minhas andanças como ciclista amador, elas, as vacas, são encontradas em todas as vias possíveis e imagináveis, desta cidade capital do país, e do interior da ilha maior. Como já escrevi em algum lado, é durante o pedal que vou meditando, resolvendo problemas, criando soluções e escrevendo, mentalmente, sobre tudo e mais alguma coisa, inclusive sobre elas, as Vacas.

É que uma vez vi um “meme” que mostrava aos homens, como encerrar uma discussão com as suas respectivas esposas: bastava chamá-las de “Vaca” !!!!!

Acredito que quem criou o “meme” nunca parou para observar, com olhos de ver uma vaca, ou um conjunto delas. Apesar do corpo volumoso que tem, a Vaca é o animal mais seguro de si que conheço: ela não anda, ela desfila. Ela desfila pelas estradas e ‘cutelos’ da cidade, sempre com a cabeça altiva, bamboleando as coxas, enquanto vai ruminando algo na boca, e está literalmente a se cagar para o resto do universo (é só ver o rastro de b6sta que deixa pelo caminho). As vezes acho que elas acordam e determinam o trajeto do passeio do dia, e não existe nada que as faça mudar de rumo: nem carros, nem pedestres, nem ciclistas e muitas vezes, nem o próprio pastor.

A poeta brasileira Elisa Lucinda uma vez escreveu que chamar uma mulher de vaca é citar o princípio do mundo.

Já vi casos em que um carro quase atropelou um ciclista, para não atropelar uma vaca. É que ficava muito mais caro atropelar o animal mais sagrado da Índia, do que atropelar a mulher sem noção que estava em cima da bike!!!!!

Isso já chega para ver a superioridade e importância de ser uma Vaca. E acredito que elas tem plena consciência dessa sua importância, porque quando elas andam, vão tranquilas, alheias aos comentários dos outros, com o rosto/focinho levantado, abanando os rabos, para afugentar as desgraçadas das moscas, e param o trânsito, literalmente, quando cansadas, decidem parar no meio da via pública: “vocês, carros e humanos, que desviem de nós, porque não estamos nem aí para a vossa existência medíocre” – parecem nos dizer .

 

A poeta brasileira Elisa Lucinda uma vez escreveu que chamar uma mulher de vaca é citar o princípio do mundo. Eu concordo com ela. A vaca dá leite que alimenta e nutre, assim como a mulher quando dá à luz um filho/filha: ela alimenta-os com o leite que lhe brota dos seios.

Ser chamada de Vaca não é ofensa, é elogio. Talvez seja por isso, que eu e as minhas duas manas Dica e Mira, chamamos umas às outras de Vaca: é o símbolo de que somos fortes, que balançamos mas não caímos, e que “evacuamos” enquanto andamos, porque nós, as mulheres, somos o princípio do mundo.

Por isso, mulheres da minha vida, quando vos chamarem de Vacas, não se ofendam! É um elogio!!

 

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

Outros artigos

Deixe um comentário

Follow Us