“Elogios” que são ofensivos para as mulheres negras

Enquanto "desencardidora de mentes", é meu dever dar um contributo ativo para a desconstrução de paradigmas "sensíveis" à condição feminina, sobretudo no que à mulher solteira e à mulher negra tocam. Um deles questões prende-se precisamente com a forma como os "não negros" se dirigem ou referem a nós.
"Elogios" que são ofensivos para as mulheres negras - Sara Sarowsky

No universo feminino, que é onde me sinto confortável para opinar, tal acontece com uma frequência indesejável nos dias que correm. Dois milénios e duas décadas depois de Cristo, continuamos a levar com ‘pseudo elogios’ que em nada abonam a nosso favor, pelo contrário. Acredito que a maioria daqueles que os proferem fazem-no na crença de que estão a enaltecer-nos, quando na verdade estão é a desmerecer-nos.

Porque ofensa é ofensa, seja ela provida (ou não) de intenção, é preciso expor a situação, trazer à baila o tema, de modo a alertar os incautos para terem cuidado, de modo a não ferir suscetibilidade nem cair no erro de perpetuar estereótipos que contribuem ativamente para o enraizamento do racismo e do preconceito em relação às mulheres negras.

Num artigo para uma conhecida revista feminina portuguesa, a especialista Cláudia Turpin cita quatro “bocas” que nos são ofensivas e que estamos fartas de ouvir. São elas:

“És uma negra bem bonita”

O que está implícito neste comentário é que os negros, em geral, são pouco atraentes. Isto para não mencionar a noção condescendente de que a pessoa que está a tentar “elogiar” é uma rara exceção à regra, que, diga-se de passagem, só existe por causa de preconceitos. Da próxima vez, deixa a qualificação e as nuances racistas de lado, e faz apenas uma afirmação genuína sobre a beleza da outra pessoa. Já agora, podemos juntar o “És diferente. Vê-se que cresceste cá” ao pacote?

“Não pareces negra. Tens alguma mistura?”

Esta pergunta é um sintoma de discriminação pelo tom de pele, na qual as minorias são consideradas mais “aceitáveis” se tiverem traços físicos que se assemelham aos de pessoas brancas. Em vez de dizerem a uma mulher negra que ela é bonita ou inteligente, pessoas de todas as raças, incluindo alguns homens negros, perpetuam a suposição de que essas características só podem ser alcançadas através da existência de relações interraciais na linhagem familiar.

“Tens tanta sorte! Não precisas de bronzear”

Sim, as pessoas negras têm mais melanina, uma proteína que é responsável pela pigmentação da pele, do cabelo e de outros pelos no corpo. A dita sorte por termos um “bronze natural” prende-se com as preferências pessoais de cada um em relação ao tom de pele. Porém, há uma ideia errónea de que não conseguimos ficar bronzeados. Embora tenhamos menos probabilidades apanhar escaldões ou de ter cancro da pele, não deixamos de estar vulneráveis aos efeitos nocivos dos raios solares e precisamos de proteção e cuidados *como toda a gente*.

“Tenho uma queda para negras”

Alô? Noção precisa-se. As negras não são todas iguais. Então, quem diz isto sente-se atraído especificamente pelo quê? Dependendo da resposta, poderá estar a sugerir que só tem interesse nos estereótipos associados às mulheres negras, e não nas características individuais de cada uma. Não há nada de errado em achar certos detalhes atraentes – penteados, traços faciais ou diferentes tipos de corpo – mas é perigoso sugerir que qualquer combinação dessas qualidades representa o todo de uma etnia.

Os tópicos acima referidos espelham na perfeição o que referi no início desta crónica, ou seja, que há elogios que são dispensáveis, sobretudo se forem capazes de constranger aquele que os ouve. Na dúvida sobre como elogiar uma mulher negra, sem cair no erro de perpetuar estereótipos ou preconceitos, recomendo sensibilidade e bom senso, que esses nunca falham nem saem de moda.

Por experiência própria acrescentaria dois ou três “cumprimentos”, como, por exemplo, este: “Deves ser uma bomba na cama”. Mas isso já é assunto para outra crónica, que esta já cumpriu o seu propósito. Fica bem, na companhia do daquele abraço amigo!

 

Artigo originalmente publicado no blog https://aindasolteira.blogs.sapo.pt/

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Sara Sarowsky

Sara Sarowsky

"Radicada em Lisboa, é blogger, cronista, inspiring talker, cupido profissional, organizadora de eventos e tudo o mais que a desafiar. Por gostar de ser/estar feliz, a sua escrita é recheada de humor e positividade, com uma pitada de sarcasmo pelo meio".

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