Estátuas – Uma Discórdia de Matéria Inerte

Ficará para sempre nas nossas memórias o fatídico dia 25.05.2020, quando um polícia americano branco asfixiou, com o auxílio do joelho, até à morte um afroamericano de nome George Floyd, em plena rua da cidade norte-americana de Mineápolis, Minnesota, ignorando os vários apelos de aflição dos transeuntes, bem como da própria vítima que, repetidas vezes, disse “I can’t breathe”.
Pelourinho da Cidade Velha (Ribeira Grande de Santiago)

A morte de um ser humano, ainda que natural, é um processo extremamente doloroso para aqueles que perderam o seu ente querido. Quando ela acontece nas circunstâncias em que ocorreu a de George Floyd – um assassinato por motivos fúteis e raciais – a raiva toma conta de nós e, se o emocional se sobrepor ao racional, somos capazes de despoletar uma onda de violência sem fim à vista. Foi o que se passou em várias cidades americanas e noutras partes do mundo, nos dias seguintes à morte de Floyd.  

Sob o lema “I can’t breathe”, a morte de George Floyd veio-se a transformar num grito de revolta, especialmente dos afroamericanos que ainda até hoje não viram materializadas e, pouco mais, consolidadas a união e coexistência harmoniosa entre negros e brancos, sonho que Martin Luther King alegou, no dia 28.08.1963, nos degraus do Lincoln Memorial – Washington D.C, e que para a História ficou imortalizado como o célebre “I Have a Dream”. Um grito negro, e não só, por justiça que fez eco em todos os cantos do mundo. Justiça por Floyd e por todos aqueles outros que, tragicamente, foram arrebatados deste mundo às mãos de quem o Estado antes nomeou para lhes garantir segurança.

Enquanto sobre o rastilho de pólvora racial avançava a chama exaltada e alimentada pelo combustível da aversão e raiva dos manifestantes, alguém achou por bem trazer à baila as hirtas e velhas estátuas da era colonial. É que algumas dessas estátuas homenageiam traficantes de escravos e figuras coloniais que, de certo modo, muito contribuíram para o crescimento do racismo que agora se quer combater e erradicar de uma vez por todas. Uma dessas estátuas que tombou às mãos dos manifestantes foi a de um comerciante de escravos do século XVII, Edward Colston (1636-1721), erigida, em Bristol, no sul de Inglaterra, no longínquo ano de 1895.

Numa era em que, devido ao fenómeno das redes sociais, o mundo está cada vez mais globalizado e virtualmente interconectado, qualquer ação pode virilizar, contagiando, num curto espaço de tempo, milhões de pessoas, tal qual vem sucedendo com a pandemia de Covid-19, doença causada pelo vírus SARS-CoV-2. Portanto, o movimento anti-estátuas, em pouco tempo, passou a ser um assunto global e, como seria de esperar, acabou por fazer eco aqui em Cabo Verde, país que existe, enquanto estado autónomo, há apenas 46 anos, mas cujas formações remontam à década de 1460, quando navegadores ao serviço da Coroa Portuguesa o descobriram.

Até hoje, a tese que perdura é que os navegadores portugueses descobriram estas ilhas desabitadas. Ainda que pudéssemos achar que os portugueses quisessem propositadamente fazer-nos crer que aqui não se achou gente, apenas para defender os seus interesses, argumentos faltar-nos-iam para provar que estas ilhas ou algumas delas puderam albergar alguma sociedade pré-portuguesa. Não há registos fósseis, um dente sequer, que as datações por radiocarbono possam atribuir uma idade que extrapole o marco da descoberta das ilhas pelos navegadores portugueses. Ainda que alguma civilização africana pudesse ter vencido a distância de quase 500 km que separa a península continental homónima das ilhas do arquipélago de Cabo Verde, seria pouco provável que aqui pudesse prosperar por muito tempo, tendo em conta o clima árido e seco das ilhas.

Em Cabo Verde, não obstante a ausência de registos arqueológicos que atestem, de forma irrefutável, a presença humana nas ilhas antes da década 1460, há quem aponte as inscrições antigas feitas na lendária Pedra do Letreiro ou as marcas presentes na “Rotxa Scribida” como “provas” dessa hipotética presença.

A Macaronésia, designação dada ao conjunto formado por quatro arquipélagos atlânticos – Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde – e parte da faixa territorial do continente africano adjacente a esses arquipélagos, na fantasia popular é considerada a hipotética localização da Atlântida, lendária ilha ou continente cuja primeira referência conhecida remonta a Platão. Tanto assim é que a palavra macaronésia tem origem grega, nos vocabulários “makáron” (equivalente à felicidade) e “nesoi” (ilhas). Portanto, ilhas da felicidade ou ilhas afortunadas.

Fantasia à parte, no caso das Canárias há fósseis (incluindo múmias) e outros registos históricos que provam a existência de uma civilização pré-hispânica, os Guanches, que viria mais tarde a desaparecer do mapa dessas ilhas em resultado da dizimação provocada pelas doenças levadas pelos europeus, assimilação forçada e suicídio de grupo enquanto última força de resistência. Também, no caso dos Açores há alguns registos que atestam que houve ocupação humana desse território antes da chegada do navegador português Gonçalo Velho à ilha de Santa Maria, em 1431, faltando, no entanto, ainda saber por quem.  Um desses registos é uma amostra de uma pia esculpida na Grota do Medo, na ilha Terceira, cuja datação por radiocarbono indicou uma idade de 950 anos.

Em Cabo Verde, não obstante a ausência de registos arqueológicos que atestem, de forma irrefutável, a presença humana nas ilhas antes da década 1460, há quem aponte as inscrições antigas feitas na lendária Pedra do Letreiro ou as marcas presentes na “Rotxa Scribida” como “provas” dessa hipotética presença.

Comecemos pelo último. “Rotxa Scribida”, local que inspirou a famosa homónima morna eternizada na doce voz da Diva dos Pés Descalços, situa-se na localidade da Ribeira Prata, concelho do Tarrafal, ilha de São Nicolau, e, ao que parece, aquilo que se diz serem hieróglifos anteriores a chegada dos navegadores portugueses, nada mais são senão concreções minerais nas quais os olhos humanos se deixam iludir. Ainda assim, uma curiosidade aqui se destaca. O nome Ribeira Prata parece ser uma derivação de Ribeira dos Piratas, por, talvez, ser um local onde os piratas encontravam guarida ou ponto de abastecimento de água e géneros alimentícios. Com o passar dos tempos, em resultado da pronúncia crioula da palavra Piratas, o nome veio a ficar Ribeira Prata. Pois, prata, infelizmente, é um minério inexistente nestas ilhas. Prata mesmo, por aqui, apenas o reflexo do luar nas águas das várias enseadas em torno das ilhas.

Quanto à Pedra do Letreiro, esta situa-se na Ribeira do Penedo, Janela, Santo Antão. Aqui de facto há um registo feito por um ser humano. Ainda assim, bastante questionável para se afirmar categoricamente que foi feito antes da chegada dos portugueses. Pois que, para além dos caracteres, há uma Cruz de Cristo esculpida na rocha. A Cruz da Ordem de Cristo é um símbolo intrínseco a Portugal, estando presente na sua bandeira e tendo sido utilizada nas velas das naus do tempo dos descobrimentos. Portanto, a sua presença, salvo redundância, atesta a presença portuguesa no local. Podendo, no entanto, os portugueses, na década de 1460, tê-la adicionada à rocha, enquanto marco da sua passagem pela ilha, numa altura em que os demais hieróglifos, talvez, ali já constassem.  Sem um estudo científico minucioso, tudo o quanto se disser a respeito será pura fantasia das nossas mentes. 

Assim, a tese que prevalece é que Cabo Verde foi descoberto na década de 1460 pelos navegadores ao serviço da Coroa Portuguesa, desabitado e sem registo de presença humana anterior a essa data. E, é a partir dela que vamos dar continuidade aos próximos parágrafos.

Após tomar conhecimento da descoberta dessas novas ilhas, a Coroa Portuguesa cedo começou a delinear um plano para a sua ocupação, antes que essas pudessem cair nas mãos dos rivais, nessa altura, os espanhóis, que também pretendiam fazer do atlântico um “mar nostrum”, bem como se apropriar de tudo o quanto se viesse a descobrir nessas novas epopeias marítimas.

A primeira opção recaía sobre os próprios portugueses, ou seja, à semelhança dos Açores e da Madeira, o objetivo era povoar as ilhas de Cabo Verde com gente proveniente da metrópole. Uma estratégia que, entretanto, neste arquipélago não teria sucesso, dada as suas características tropicais, aridez, escassez de chuvas e distância face ao centro do império. Assim, uma nova estratégia se revelou necessária, com o Reino a optar por estabelecer, através de Carta Régia, benefícios vários àqueles que quisessem, voluntariamente, estabelecer-se no novo território. Cedo, o negócio de escravos com a costa ocidental africana viria a revelar-se bastante lucrativo para os colonos, o que fez do Arquipélago um ponto estratégico no Comércio Triangular no Atlântico. Os desterrados e condenados na metrópole que pretenderam livrar-se da forca e outros meios de execução, também acharam neste novo território uma nova oportunidade de prosperar ou morrer no infortúnio do pesado exílio.

Como se pode ver, o sucesso do povoamento de Cabo Verde se deve ao comércio triangular, infelizmente, no seu grosso alimentado pelo tráfico de seres humanos oriundos da Costa Ocidental Africana, que aqui eram ladinizados e posteriormente enviados para as plantações café, cana-de-açúcar e cacau na região que atualmente forma a América Latina.

O arquipélago também funcionou como laboratório de testes de adaptabilidade das espécies vegetais e animais que se pretendia introduzir no Novo Mundo. Foram as receitas provenientes desse comércio triangular que ditaram o apogeu da Ribeira Grande de Santiago, a primeira cidade erigida pelos portugueses nos trópicos.

Assim como tudo o que brilha se transforma em fonte de atração, Ribeira Grande de Santiago entrou na rota dos ataques de piratas e corsários, o que viria a ditar a sua decadência e opção pela Praia de Santa Maria, novo centro do arquipélago.

É nesse xadrez de genes, pintado de preto e branco, que se estabeleceram estratégias e jogadas, sendo, infelizmente, a escravatura uma delas, que contribuíram para sucesso do povoamento das ilhas de Cabo Verde, não obstante todas as adversidades, dando origem ao homem, a língua, aos usos e costumes e tudo aquilo que demais constitui a identidade cabo-verdiana. E neste processo todo que se edificou a sociedade na qual hoje vivemos e que é fonte de todo o nosso orgulho.

Não é enterrando ou derrubando tudo o quanto se associa ao Holocausto que se apaga uma das maiores nódoas da história humana do século passado.

A escravatura é uma nódoa intrínseca do nosso passado. Algo que ditou a nossa origem, mas que devemos repudiar e tudo fazer para que nunca mais volte a ser realidade nas sociedades humanas. Não é enterrando ou derrubando tudo o quanto se associa ao Holocausto que se apaga uma das maiores nódoas da história humana do século passado. Ainda que seja algo que nos envergonhe enquanto espécie humana, os campos de concentração são um património da humanidade que deve ser preservado. Preservado em memória das vítimas e para que as gerações vindouras possam sempre sentir vergonha desse capítulo negro da nossa história recente e nunca mais deixá-lo voltar a suceder.  O mesmo se aplica ao património da era colonial e às memórias da escravatura.

Cabo Verde é um caso sui generis para o qual não se deve simplesmente copiar tendências globais e descontextualizadas. Ainda que fizesse sentido mandar retirar e/ou substituir estátuas que reportam ao nosso passado colonial e escravocrata, ninguém poderia mandar fazer o mesmo com o nosso património mundial da UNESCO, a Cidade Velha. O Pelourinho é um lugar público, onde outrora se expunham e se castigavam os escravos. Mas, sem Pelourinho, sem Sé Catedral, sem Forte de São Filipe…a Cidade Velha deixa de ter sentido enquanto símbolo da nossa identidade e património mundial da humanidade. Não podemos ser contra a nossa própria história e tampouco negar, por mero capricho, parte dela!

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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