Festas sem fim: o véu cultural que oculta desafios em São Vicente

Nha cidade, Mindelo, encontra-se imersa numa incessante calendarização da vida, na qual a agenda de eventos não apenas dita o ritmo do dia-a-dia mas também molda a estrutura e as dinâmicas sociais. Que fique claro: gostar de se divertir, todos nós gostamos. Não é este o foco da minha fala. E nem o preço das bancadas para assistir ao Carnaval, algo apontado inicialmente por alguns amigos quando tentei mostrar meu olhar crítico a situação actual. Na verdade, as bancadas são apenas um desvio do foco por isso não falarei sobre elas.
Foto Reprodução Facebook @MCIC

Estou a falar deste viver segundo uma agenda de eventos que carrega consigo implicações profundas sobre a identidade coletiva, as relações interpessoais e a percepção do tempo e, claro, o desenvolvimento da ilha de São Vicente.

Mindelo está preso num paradoxo: se para o lado cultural e social a sua efervescente agenda de eventos (celebrações folclóricas e festivais) moldam significativamente a vida social e cultural de seus habitantes, por outro, esta intensa calendarização de eventos tem os seus impactos económicos, sociais e culturais que lhe são desaforáveis. Entre os que folcrorizam o movimento das massas e os que tiram dividendos políticos/partidários temos uma população cada vez mais a perder o poder de compra e apática a outras questões da vida social e económica. Sem dúvida, os eventos em São Vicente geram um ecossistema próspero para certos grupos que encontram nestas celebrações uma mina de ouro para promoção, folclorização e capitalização da cultura local.

Como já disse, o foco da crítica, contudo, não reside na celebração dos eventos em si, mas na mentalidade predominante de “ganha-gasta” e na vida pautada pela agenda de eventos. Há um ciclo vicioso de consumo imediatista e superficialidade cultural que vai adiando o desenvolvimento local em favor da próxima grande celebração. A grande massa que movimenta esses eventos é aquela que está com maiores necessidades do desenvolvimento sustentável, inovação e investimento em capital humano. Tão só, aquelas coisas essenciais para o progresso a longo prazo da ilha, mas que se realiza nos berros, danças e pinturas. Todas as sociedades precisam dos seus escapes: sejam as mais avançadas, sejam aquelas em insegurança alimentar. Em qual delas preferias dançar nas ruas da Morada?

É essa massa que está em constante vivência em função de uma agenda pré-determinada que (sem saber, talvez) está em desvantagem. Num processo de retroalimentação, essa massa atrelou excessivamente a sua identidade individual e coletiva aos eventos programados. Mesmo que em alguns casos tente forçar momentos de espontaneidade e experiências autênticas, mas o irónico é que o faz dentro daquilo programado e premiado como tal.

São Vicente, apesar de sua infraestrutura avançada em comparação com outras regiões de Cabo Verde (dados do INE), enfrenta o desafio de transitar de uma geração tecnicamente bem formada para um futuro incerto, marcado por uma possível falta de profissionais qualificados e pensadores críticos. Está em risco o potencial económico da ilha, bem como da sua capacidade de liderança e inovação em áreas além dos eventos e do entretenimento. Arriah!

Todas as sociedades procuraram o escape através dos eventos culturais. É uma forma de fugir da monotonia do quotidiano, enquanto se mantêm as tradições e a expressão artística/criativa. Contudo, quando a ênfase exagerada nesses eventos começa a ofuscar questões críticas como educação, saúde, inovação tecnológica e desenvolvimento económico sustentável, torna-se imperativo reavaliar as prioridades. Mas falar criticamente sobre isso pode ter o dom de criar inimizades. A pressão social para conformar-se à maioria e valorizar esses eventos acima de tudo pode limitar a capacidade crítica da população e a discussão aberta sobre o futuro desejado para São Vicente. Relembro: o problema não é o evento em si.

Pautar a vida de Mindelo pela calendarização de eventos reflete uma complexidade que vai além da celebração da cultura. Sim, estes eventos oferecem oportunidades económicas e até fortalecem a identidade local, mas também (e principalmente) calendarizar a agenda da vida pelos eventos limita e tem um impacto no desenvolvimento sustentável da ilha.

A problemática surge quando estes eventos começam a dominar o tecido social e económico da ilha, muitas vezes mascarando as reais necessidades da população. Claramente ainda não encontramos o equilíbrio entre a celebração da cultura e a atenção às questões fundamentais que garantirão o progresso e o bem-estar a longo prazo de São Vicente. A verdadeira cultura de uma sociedade inclui não apenas as suas festas, mas também seu compromisso com a educação, inovação e desenvolvimento sustentável. E isso ainda estamos longe.

Oli realidade te bem pegob, cuidod… Corrê! Corrê!

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Dai Varela

Dai Varela

Gestor de Imaginário, Escritor, Produtor Cultural, Gestor de Conteúdos e Coordenador Nacional para Cabo Verde da Iniciativa Africana de Artistas para a Paz - AAPI. Formado em Ciências da Comunicação - Jornalismo e Docente Universitário desde 2012. Com interesse especial pela produção para a infância através da JOVEMTUDO Cabo Verde.

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