Filhos: o luto no crescer

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Filhos: o luto no crescer

“Saúde mental materna importa”. É o lema que moveu este mês de maio, com a campanha “Maio furta-cor” a levar atividades diversas a vários pontos do país e do mundo.
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Falar da saúde mental materna importa sim, nunca é demais. Afinal é sabido o “mal” que a mistura e explosão de sentimentos que envolvem a maternidade provocam na mulher. Não serão necessárias muitas letras nesta matéria. A exaustão, o cansaço físico e psicológico, a
ansiedade, o medo, é sabido que isso tudo está presente e dificilmente, ou quase nunca,
desaparece. Mas e o luto?

Sim, aquela melancolia de quando, às vésperas de mais um aniversário do filho, a mãe olha para trás e se dá conta que o seu bebé cresceu, que aquele serzinho frágil que ela pariu não existe mais. Aquele serzinho que precisou ser amamentado infinitas vezes já come sozinho, e inclusive escolhe os talheres que quer usar. Que aquelas bochechas que antes cheiravam a leite agora têm manchas de chocolate. Que aquele olhar de amamentação ficou para trás, tornou-se breve. Aqueles olhinhos cintilantes que antes protegiam a mãe num mundo onde a sua força era inabalável e incalculável agora são um tanto distraídos.

Que aquelas mãos, antes quietas depois exploradoras, começaram a perder o formato rechonchudo. Que os banhos já não são de banheira e sim de chuveiro. Que as dobrinhas
desapareceram. Que o engatinhar deu lugar ao correr e saltar. Que aqueles sapatinhos repletos de fofura já são tamanho 27. Que o “acuô” deu lugar ao “acabou, mãe”.

Dói. Dói muito. E dói mais porque quando a mãe se dá conta de todas estas perdas ela sente que não viveu cada uma delas. Ela se culpa por não ter prestado mais atenção naquele caminhar desengonçado, ou de ter desfrutado mais daquelas mãozinhas exploradoras durante o amamentar. Ela se arrepende de ter reclamado do cansaço a meio da noite, e vê-se disposta a carregar todo aquele peso, o dobro se for preciso, para amamentar só mais uma vez.

É um passado que não volta. Morre a mãe do bebé para que nasça a mãe de um homenzinho. Mas sem tempo para o luto, porque entretanto velar seria perder o agora, que
um dia, lá na frente, também vai deixar saudade. Desejar voltar no tempo e se culpar por deixar escapar pelos dedos o presente. Ou melhor, um medo de sequer arriscar, de estar a repetir o erro. É uma vontade de gritar porque o aperto já não cabe mais no peito. Um sofrimento por antecipação. Uma saudade do que já foi, mas principalmente do que ainda está aqui. O luto tem dessas: queima. Queima tanto que, só de pensar em por ele passar, mata, lentamente. Volta a culpa. Um ciclo.

A sobrecarga materna vai muito além do físico e psicológico. O coração, este, também pesa. Aliás, pesa mais. Pesa sempre. Até o dia em que a mãe, tal como aquele bebé com cheiro de leite, resume-se a uma memória.

Feliz aniversário, Meu Amor.

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Keita Violante

Keita Violante

Mãe. Uma menina mulher com a mania de se refugiar na escrita. Atreve-se a brincar com as letras e por vezes deixa traduzir por elas lágrimas, inquietações, saudades. Ser poeta nunca se atreveria. Escreve com alma, com fervor, um toque de drama, sim, mas falta tal maestria."

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