Folhas de Janeiro

O que se apresenta seguintemente são rasbicos copiados do meu caderno de ap(r)ontamentos mensais. Ideias soltas como botões.

Queridx Balaianos

01. Minha cabeça, minha sentença: Sinto que já não consigo escrever. Pelo menos não à maneira de antigamente. Escrever pesa. Escrever dói. É veredicto. Só de espreitar a folha em branco, os meus olhos inflamam. O vazio me deglute. Antropofagias & Devaneios! Síndrome de Impostor, disse-me alguém. Será? Talvez seja por mania de cobrança, por uma tal de perfeição. No entanto, estou mais a crer que é mesmo a coisa do enferrujamento. É assim que se diz? Lá está, a desgraça é essa: as palavras parecem-me demasiadamente fugidias. Quando quero dizer alguma coisa, parece que escrevi outra. Quando penso em dizer, digo sem pensar. E quando penso, não existo. Logo, não sou. Logo, ainda estou para ser ( muito fatigado para isso tanto! ). Ser ou não ser não é a questão, antes fosse. Seria um gato! Mas me livrem de ser colocado numa caixa a saber se quase-morro. Sou um quase-morto. Consolo-me: quem quase morreu, ainda vive, não é senhor Veríssimo? Tenho vivido. Tenho vivido.

02. Faz mais ou menos um ano que resolvi apartar-me das redes sociais. Não é que tenha me erradicado de todo, principalmente porque não mo deixam as diligências artísticas e aqueles afetos amarrados, que exigem uma rega. Mas reduzi cronicamente a minha frequência, as minhas intervenções e, o mais importante que tudo o mais: o máximo de zelo em relação àquilo que consumo, aonde coloco os meus ativos mais preciosos -tempo e atenção. Ainda para celebrar: expurguei o demónio do dedo coçante – o impulso de comentar, revidar. Foram-se as respostices. Não, não é omissão, ou muito menos o perigo da visão única. É paz mesmo. É saúde mental. E, convenhamos – esperteza.

A cientificação da opinião me aflige. Sempre parti da hipótese e da proposta de que precisamos radicalizar os nossos debates. Radicalizar a jeito etimológico, escavar até às raízes das questões, ir à profundeza dos assuntos. O que não parece combinar muito com a tiktoktização do debate público, coaptado pelo consumismo digital, que é mais sobre entreter, incendiar os sentidos e espetacularizar a realidade.

No troca-troca de comentários, há como que uma falsa assunção do diálogo. Atropelos. Incapacidade de auscultar, necessidade de rebater. Urgências responsivas. É muito fácil escorregar numa disputa surda pela razão, discutindo-se sujeitos e não predicados, o que resulta, rapidamente, na aniquilação e destituição das subjetividades. Reencenações da barbárie!

É. Como explanar aos outros a forma como construímos os nossos caminhos pensantes, a partir de que referencias articulamos os nossos posicionamentos, quais os horizontes teóricos que mapeiam a nossa fala? Boa pergunta, quais? Quem está a falar sobre o quê, e porquê? É lugar de fala ou lugar de cala? Quando é hora de intervir, e como fazê-lo? Qual o trato que damos àquilo que expressamos publicamente? Qual o nosso grau de compromisso e responsabilidade com aquilo que estamos a dedilhar?

Honestidade intelectual! O quanto sabemos sobre o que sabemos? E será que não precisamos de ser capazes de situar as nossas convicções dentro daquilo que elas de facto são – o nosso recorte do mundo a partir do nosso reservatório de experiências e saberes. Digo eu que, quando vamos teclar sobre alguma coisa que seja, é preciso que saibamos nutrir as nossas falas, armá-las de luzes potentes. Despir a saia narcísica de que sabemos tudo sobre tudo, que temos palpites e, recuperar algum tento.

Tempos desafiadores.

03. Falar. Atos de fala, atos de falha. Discutia isto com alguém: a forma como automatizamos certos atos elocutórios no nosso quotidiano. Falas que carregam armadilhas afetivas. Exemplo: iniciar uma conversa, um cumprimento com “tudo bem?”. Já pararam para pensar o quão evasiva e maniqueísta é essa pergunta? Mea culpa! Parecendo que não, mudar para “como estás?” vai ao encontro do outro. Abre-se à escuta. Oferece espaço para vários espectros. Oferece espaço à elaboração. Não é só uma figura de estilo. É talvez pensar que as nossas comunicações podem ser mais humanizadas, elas podem ser repensadas. Reconfiguradas. E como poderia estar tudo bem num mundo como este?

04. Estes dias estava a pensar sobre como o Autoconhecimento virou pop. É receita de bolo, quase. É giro até, mas eu quero ver é Auto-Praticamento. O que não faltam por aí são pessoas com altos graus académicos, estudos e mais estudos de espiritualidade, retiros e práticas esotéricas, mas …e a vida real? O que andas fazendo, chica? Quais são as ações reais, a aplicação factual desse conhecimento? Conhecer para quê? 2024, ano de AUTO-PRATICAMENTO. Declarado estás!

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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