Göbekli Tepe e os ainda mistérios da Humanidade

“Acredito que somos uma espécie com amnésia, acho que esquecemos as nossas raízes e as nossas origens” – Graham Hancock, escritor e jornalista britânico.

Há dias, num zapping pela Netflix, deparei-me com um documentário histórico que, logo à partida, aguçou, e de que maneira, a minha curiosidade. Trata-se de “Ancient Apocalypses” ou, conforme traduzido para português, “Revelações Pré-Históricas”, um documentário de oito episódios, cada um com a duração média de 30 minutos, que acompanha o jornalista Graham Hancock numa viagem por vários locais do mundo, com início na Indonésia e término nos Estados Unidos da América, à procura de evidências que corroborem a tese por ele defendida, desde há três décadas, que, ao contrário do que se pensa, para além dos caçadores-recoletores, até a última Idade do Gelo (12,5 mil anos) existiu uma civilização humana avançada.

A tese controversa de Hancock é que, assim como nós atualmente, nessa época a civilização humana tinha um enorme domínio de tecnologias, o que contribuiu para grandes avanços civilizacionais. Contudo, uma série de alterações climáticas severas, ocorridas há mais de 12 mil anos, devido ao impacto de um cometa, resultaram na destruição dessa civilização.

Alguns sobreviventes terão viajado por diversas partes do mundo, transmitindo aos povos caçadores-recoletores conhecimentos científicos que vieram revolucionar o desenvolvimento da agricultura, arquitetura e matemática. Nesses locais, edificaram templos, nos quais ele acredita estarem inscritas várias referências que apontam para a ocorrência de um grande cataclismo global. Esses templos são vistos como cápsulas do tempo cujo propósito é servir de aviso aos povos que precederem a civilização desaparecida sobre a ocorrência e impacto desses fenómenos cíclicos.

“Revelações Pré-Históricas” é extremamente polémico, do princípio ao fim! É praticamente um “cometa” de ideias em rota de colisão com os sólidos esteios que sustentam a História da humanidade que nos deram a conhecer até hoje. Ainda, noutra perspetiva, é como se Hancock quisesse passar uma borracha por cima daquilo que foi escrito com tinta indelével e que nos foi ensinado pelas instituições arqueológicas da “arqueologia mainstream”, conforme ele mesmo as designa diversas vezes ao longo do documentário.

A “arqueologia mainstream” vem, desde há muito, defendendo que na última Idade do Gelo, a humanidade se resumia tão-somente a povos caçadores-recoletores, e que por volta de 5.000 a 4.000 anos AC, com o advento da prática da agricultura e pecuária, surgiram as primeiras civilizações humanas. Até hoje, a região do Crescente Fértil, no Médio Oriente, é considerada o berço da civilização humana. Acredita-se que foi na fértil planície situada entre os rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia, que o homem (os sumérios) se fixou pela primeira vez, passando a ser sedentário. A partir daí, outras civilizações antigas foram surgindo ao longo do tempo, quase sempre em locais situados junto aos grandes rios. É o caso da civilização egípcia, nas margens do Nilo.

No documentário, Hancock apresenta o que para ele são “provas” da existência dessa civilização perdida e procura explicar as causas da sua destruição. Em quase todos os locais por ele percorridos existem estruturas (algumas que se assemelham às pirâmides de Gizé, no Egipto), que ele defende terem sido construídas faseadamente, ao longo de séculos. Essas estruturas, segundo o autor, foram concebidas em alinhamento com determinados astros do firmamento. É o caso dos templos de Ġgantija, localizados na ilha mediterrânica de Gozo (Malta), cuja construção procurou seguir o alinhamento com a Sirius, a principal estrela da constelação de Cão Maior e a mais brilhante do céu noturno visível a olho nu. Enquanto os arqueólogos oficiais admitem que, muito provavelmente, a construção dos templos de Ġgantija ocorreu entre 3.600 e 2.500 AC, Hancock sugere que eles são mais antigos – chega mesmo a defender que foram contruídos pela civilização avançada que terá existido durante a última Idade do Gelo, numa altura em que Malta ainda estava conectada fisicamente à Europa Continental.

Mas, de todos os sítios arqueológicos exibidos no documentário da Netflix, considero ser Göbekli Tepe o mais fascinante. Göbekli Tepe, um sítio de interesse arqueológico reconhecido pela UNESCO como património mundial desde 2018, representa um templo constituído por estruturas circulares feitas de pedra calcária, algumas delas em forma de T, no cimo de uma colina homónima localizada a sudeste dos Montes Tauros, na Turquia. Descoberto na década de 1960, inicialmente Göbekli Tepe foi considerado como sendo os vestígios de um antigo cemitério bizantino. Isso, até que em 1994, o arqueólogo alemão Klaus Schmidt veio a verificar que Göbekli Tepe era muito mais intrigante que aquilo que inicialmente se propôs.

As escavações realizadas por Schmidt expuseram um complexo megalítico contendo várias estruturas circulares, que desafia tudo aquilo que os “arqueólogos mainstream” defendem até hoje sobre o surgimento das primeiras civilizações humanas. Desde logo, as datações realizadas indicam que o complexo de Göbekli Tepe foi erguido há cerca de 12 mil anos, muito tempo antes de Stonehenge e 5 mil anos antes do surgimento da primeira civilização na Mesopotâmia. Se a tese prevalecente entre os arqueólogos é que nessa altura a humanidade não era muito mais que povos caçadores-recoletores (nómadas), como poderão esses ter construído uma estrutura tão avançada e misteriosa como é Göbekli Tepe? Terá mesmo existido uma civilização avançada na última Idade do Gelo, responsável pela construção desses complexos que desafiam a Arqueologia e a própria História da humanidade?

Não obstante todas as polémicas levantadas em torno do Hancock e suas teorias (de conspiração?), eu achei o documentário superinteressante e aconselho-vos vivamente a vê-lo. Acredito que depois disso, muitos, assim como eu fiz, irão procurar saber um pouco mais sobre os sítios de importância arqueológica mundial referenciados no documentário.

Socram d’Arievilo, janeiro de 2023.

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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