Há mães separadas a sofrerem toda uma vida

Uma crónica de Vandrea Monteiro.

Segurou a minha mão com delicadeza.

Disse que ia ter com o irmão no trabalho, pois hoje não consegue almoçar em casa.

Mentira. Grita-lhe a falta de tudo. Apesar de estar limpa e cuidada.

Tristeza. A sua tristeza cheira.

Respiração assistida. Desistida.

Olhos em depressão e alma em sofrimento. Depressão. Depressão…

Queria tanto almoçar junto, mas o pequeno aguardava por mim na escolinha. Deixei-lhe na mão a esperança limitada e sorriu-me todo o coração.

Hoje não me disse nada, mas percebi nela o mundo. Já ganhámos horas de conversa, mas hoje pouco precisava ser dito. Depressão. Depressão…

Há mães separadas a sofrerem toda uma vida. A sofrerem toda uma casa.

Há mães separadas a sofrerem toda uma vida. Não poder alimentar os filhos destrói o corpo, a alma. Vive-se apenas pelos filhos. Pelos tostões… e a mulher morre… morre aos bocados. E sobra apenas a mãe.

Fiquemos mais atentos uns nos outros. Principalmente… umas nas outras.

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

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Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

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