Hoje levei-lhe flores

Na altura falamos sobre o que leva um homem ou um rapaz, a ser violento. E ela perguntou-me: e se a mamã fizesse uma re-leitura do texto, mas desta vez com ele a dizer “Hoje mandei-lhe flores”?
E fiz a re-leitura, e o resultado é o texto-poema abaixo. Vamos lá continuar o combate à violência educando tanto as meninas como os meninos para o não-machismo?
“Hoje levei-lhe flores
levei Margaridas amarelas bem alegres, e quentes assim como Ela.
Na semana passada foram Tulipas, amarelas e luminosas,
assim como o sorriso dos seus olhos.
E nos meses, e nos anos anteriores foram várias as flores que lhe ofereci.
As Dálias brancas foram depois da nossa primeira discussão, e a marca dos meus dedos foi o Colar que ela carregou ao pescoço por dias…
Os Crisântemos, num arranjo personalizado, foram-lhe entregues no trabalho naquele dia que Ela fez uma maquilhagem muito bonita para disfarçar o rosto inchado.
Também, eu já não aguentava os queixumes sobre as cólicas menstruais, e tive que lhe dar um real motivo para chorar…
Meu Deus, as rosas!! Dois bouquet enormes, com dúzias de rosas de várias cores foram as que Ela mais gostou… mesmo depois da surra de cinto que tive de lhe aplicar, quando exatos 40 dias após o parto da nossa filha, Ela recusou s3xo comigo porque estava cansada!!!! Eu respeitei os 40 dias, e ela me diz que está CANSADA????
Hoje levei-lhe Margaridas. Muitas margaridas.
Depois desses anos todos, somente hoje descobri qual a flor preferida dela. O quarto do hospital ficou iluminado, assim como Ela era, antes de mim.
Foi a nossa filha quem me disse, que as Margaridas são a flor preferida da mãe. Ela me disse antes de finalmente me denunciar.”

Vera Figueiredo
"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"
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