Indiferença: O Terceiro Espaço

Nessa nossa busca por conexão e aceitação, tendemos por vezes a pintar o mundo em tons binários: de um lado, achamos que estão aqueles que gostam de nós, do outro, aqueles que não. Essa dicotomia simplista, embora reconfortante pela sua clareza, falha por tornar a experiência humana redutora, na medida em que ignora um terceiro espaço: a INDIFERENÇA! Onde habitam aqueles que são absolutamente indiferentes à nossa existência (e nem serão poucos).

A indiferença, muitas vezes relegada ao limbo das emoções, reside num território neutro, onde o outro não demonstra apreço, aversão ou qualquer outro tipo de sentimento por nós. Essa ausência de afeto, por mais desconcertante que seja, pode, se assim aceitarmos, servir como um convite para mais um daqueles mergulhos em nós.

Sobre a indiferença, embora ela possa arranhar ou ferir as nossas necessidades de validação e conexão, eu começaria por dizer que é crucial reconhecer que, mais do que um ataque pessoal ela, frequentemente, surge para nos lembrar que: As prioridades e circunstâncias do outro nem sempre se alinham com as nossas; Nem todos são capazes de oferecer o que buscamos; Não somos assim tão importantes e… Está tudo bem!

Aceitar isso permite-nos conduzir a nossa atenção e as nossas energias para cultivar laços significativos com quem, não só ocupa, como também nos coloca na mesma escala de prioridades.

Ao longo da minha vida fui aprendendo a me relacionar melhor com a indiferença e, entre tropeços ocasionais, sinto que me vou me aproximando de uma compreensão, onde reconheço o libertador poder do ‘tanto lhe dá’ especialmente em momentos onde me apanho a dar-me demasiada importância.

Lembro-me de um carteiro que distribuía correspondências no nosso prédio sem nunca trocar um olhar ou sorriso. Eu teimava em cumprimenta-lo e o meu pensamento acabava por oscilar quase sempre entre “que tipo de pessoa ignora um bom dia?” e “este sr. não vai com a minha fuça”. Até que, em desabafo com a vizinha do rés-do-chão, descobri que o senhor afinal era surdo.

Esse pedacinho de informação foi o suficiente para poder dar saída nos julgamentos para poder dar entrada no ‘talvez essa indiferença seja apenas uma forma de se comunicar num mundo que nem sempre o entende’. E, mais importante, criou espaço para me questionar sobre quantas outras “indiferenças” na minha vida poderiam beneficiar de interpretações diferentes.

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Carla Palavra

Carla Palavra

Psicóloga, Comunicadora, Empreendedora & Defensora que o Walk venha antes do Talk.

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