Inovação Consciente para um Cabo Verde Sustentável

Após moderar o painel "Inovação e Desenvolvimento" na 13ª Semana da República, fui cativada pelas histórias e visões dos jovens painelistas, o que me impulsionou a escrever este pequeno artigo, onde busco analisar a intrínseca relação entre a inovação e o desenvolvimento, reconhecendo a criatividade inata do povo cabo-verdiano, ao mesmo tempo que abordo os desafios enfrentados na busca por entregar valores que efetivamente impactem toda uma sociedade.
Semana da República

Para analisar o papel incontornável da inovação no desenvolvimento de Cabo Verde, estruturei este artigo em três pontos fundamentais de reflexão, nomeadamente:

1.Desmistificação do conceito de inovação como sinónimo de tecnologia
2.Compreensão da importância da sustentabilidade no contexto de desenvolvimento
3.Reflexão sobre o carácter humano do processo da inovação num mundo cada vez mais robotizado

Desmistificando a Inovação: Mais que Tecnologia, uma Expressão da Alma Cabo-verdiana

Geograficamente situado na encruzilhada e moldado pela convergência de tradições de três grandes continentes, Cabo Verde experiencia uma fusão única de influências culturais, agitando o seu processo evolutivo como povo e nação arquipelágica. A diversidade cultural, ao longo do tempo, não apenas impulsionou, mas continua a impulsionar a criatividade do povo cabo-verdiano. A capacidade de encontrar soluções em circunstâncias aparentemente desfavoráveis é uma manifestação tangível da resiliência cabo-verdiana, onde a criatividade se torna a força propulsora do desenvolvimento e determinação para superar desafios e criar valores para a nossa gente.

É nesta essência do povo cabo-verdiano que me refugio para aclamar que inovação não é sinónimo de tecnologia. Dizer o contrário é subestimar a capacidade inovadora do Cabo-Verdiano.

Segundo o renomado autor de “Crossing the Chasm”, Geoffrey A. Moore, o termo inovar remete-nos à tradução de uma ideia num novo produto, método ou serviço que cria valor para o cliente e/ou para a sociedade. Inovar é assim, uma abordagem para solucionar desafios transversais, criando soluções que transcendem o âmbito tecnológico. Recentemente, tenho enfatizado muito esta questão em muitos fóruns, pois circunscrever a inovação apenas à tecnologia, que muitas vezes é produto de uma inovação, ou até ferramenta para certos processos inovadores, é para mim uma aniquilação do potencial exploratório que o campo inovação nos reserva. Tanto é que a desculpa de muitos jovens para não ir um pouco mais além na busca de soluções para os desafios do dia-a-dia é não ter um computador ou não perceber de informática, mesmo que na ótica do utilizador.

Longe de mim, menosprezar a importância das tecnologias no campo da inovação. A minha intenção é apenas despertar mentes mais adormecidas para a potencialidade da ferramenta essencial para a inovação, que todos temos, a mente humana. A mente humana, ousada e audaciosa, é a ferramenta mais vital e menos explorada para a inovação. Esta sim, todos temos. A única questão que se coloca é sobre a sua utilização. Isto já seria tema para outro artigo.

Desenvolver com Olhos Postos na Sustentabilidade

Embora Cabo Verde já tenha alcançado notáveis feitos em diversas áreas, facto que nos deve orgulhar a todos, é crucial evitar acomodação nas conquistas do passado, especialmente diante de um futuro incerto.

A pandemia trouxe lições valiosas sobre vulnerabilidades e incertezas, reforçando a necessidade de continuar no esforço de viver o presente com os olhos no futuro, conscientes das nossas ações e dos seus impactos em qualquer subsistema do nosso ecossistema. Contudo, apesar da inegável boa vontade e do esforço admirável da nossa gente, os caminhos para a inovação muitas vezes enfrentam obstáculos na entrega dos valores genuínos. Esses desafios incluem limitações estruturais, que destaco aqui apenas três que, no meu ponto de vista, constituem fatores indispensáveis para o desenvolvimento sustentável: deficiência nas infraestruturas energéticas, nos transportes marítimos e aéreos interilhas e de conexão com o resto do mundo. Sem deixar de observar é claro questões mais amplas como o acesso equitativo às inovações que são desenvolvidas.

Investimentos em infraestrutura, como alternativas de energias renováveis e a quebra do monopólio da fibra óptica, atualmente centralizado em Cabo Verde, são cruciais para impulsionar inovações tecnológicas e democratizar seu acesso. Isto, claro, teria impacto direto e imediato nas soluções de bases tecnológicas, mas como mencionei, a inovação não se circunscreve apenas às soluções de base tecnológica.

Na educação, ela passa, não apenas, mas também por implementar medidas que acompanhem a evolução dos educandos, introduzindo unidades curriculares relevantes para o contexto social em que vivemos, como por exemplo, literacia financeira e fundamentos de negócios. Na saúde, contribuir com soluções que anulem o fator de distanciamento arquipelágico, o tempo de espera e consequentemente tempo de respostas e assistência ao utente é imperativo, aproximando os pacientes do acesso que muitas vezes significa colocar-se entre o mar e a morte.

Nas artes, como no cinema, por exemplo, o uso da abordagem do storytelling para desconstruir narrativas nossas e tão nossas, contudo construídas sob a perspectiva do outro, é revolucionador, pois devolve-nos o direito e a dignidade de reconstituir a projeção da nossa identidade, tanto manchada pelo mundo.

No mundo dos negócios, passam por investir em modelos de negócios ousados, processos atuais, serviços ou produtos revolucionadores, ou que simplesmente apresentem uma melhoria para o consumidor.

Entretanto, nesta e em qualquer outra área mencionada, para que a inovação se transforme em valores que dão o verdadeiro significado ao conceito inovar, é necessário que os líderes tenham a capacidade de gerir numa perspectiva de flexibilidade e transformação tendo em conta que este processo envolve diferentes mindsets, ambientes, técnicas, abordagens, pois muito mais do que gerir a performance da inovação em si, o foco é manter a relevância para o cliente/sociedade. É a relevância para a sociedade que deve nortear o desenvolvimento de qualquer solução inovadora, sendo necessário enfrentar não apenas desafios técnicos, mas também éticos.

Que Cabo Verde tem tido um ritmo de desenvolvimento interessante e de certa forma, até invejável quando comparado com alguns países da nossa região, não é segredo, mas para que esse desenvolvimento seja ainda mais notório e tenha olhos postos num futuro sólido e sustentável, seja em matéria da educação, saúde, nas artes, desporto ou em qualquer outra área é necessário que toda a inovação que se pretenda desenvolver cumpra com a sua cota parte de responsabilidade social. Não aquela “responsabilidade social” com a qual estamos habituados nas redes sociais.

Vivemos num mundo bastante complexo e volátil onde muitos desenvolvimentos apelidados de “inovações tecnológicas” transformam as nossas vidas de forma inimagináveis, colocando-nos à frente de desafios éticos importantes.

Entretanto, para sermos capazes de enfrentar as complexidades desta era e promover um futuro mais risonho aos nossos, é necessário que toda a forma de inovação seja conduzida eticamente responsável respeitando os direitos fundamentais do ser humano e acautelando a proteção do ecossistema que o abriga. Em resumo, a jornada da inovação em Cabo Verde pode até ser desafiadora, como é natural, pelo simples facto de sermos ilhas, mas é nesta natureza intempérie que reside a oportunidade de inovar de forma consciente e responsável encarando os desafios como propulsores para a busca de soluções criativas de forma a moldar um futuro inovador e sustentável.

Inovar é um Ato Humano

Portanto, vê-se logo que qualquer “ato inovador” ou qualquer dita “solução” desenvolvida de qualquer forma, não deveria ser vista com bons olhos, pois hoje estamos aqui, mas o amanhã é um incógnita.

Cada inovação, por mais impregnada de inteligência artificial que seja, tem as suas raízes na mente humana, ainda que seja quando era apenas uma ideia. Nasce da vontade do homem, para o serviço da humanidade, portanto, acima de qualquer outro objetivo, ela deveria entregar valores nobres para a sociedade. Acreditar no potencial, talento e boa vontade da juventude cabo-verdiana é o primeiro passo para essa entrega, afinal ninguém, mais que o próprio povo Cabo-verdiano, conhece as suas dores e frustrações. No entanto, talento e boa vontade por si só não nos fazem vencedores.

É fundamental que a inovação transcenda o individualismo e abrace uma rede de visão compartilhada daquilo que se pretende alcançar. Isso implica o envolvimento dos organismos estatais criando leis e incentivos fiscais para fomentar a busca por soluções criativas, garantindo a fiscalização e exequibilidade das propriedades intelectuais, de origem Cabo-Verdiana e sobretudo compartilhando de uma visão clara do caminho que se pretende trilhar.

A inovação como força propulsora do desenvolvimento sustentável, assim como o nosso Cabo Verde, é uma tarefa de equipa e não um ecrã do tradicional jogo solitário. Assim sendo, demanda a colaboração de todos, sendo que os frutos conquistados devem ser compartilhados para o benefício coletivo.

 

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Hernídia Tavares

Hernídia Tavares

Mestre em ciências da inovação, criatividade e liderança pela Bayes Business School, City University of London

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