Isolada

Uma crónica da Cleo Garcia Freire.
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M ta conchê um mulata

Qui ta vivê fitchada

Isulada num gaiola¹

De público tinha como sempre a lua cheia nesse dia como se grávida, a mãe transmutada na estrela mais brilhante de todas depois de ter partido deste mundo que, agora, carinhosamente acariciava-lhe a ‘cocuruta’, e as flores amigas. Isso era o quanto lhe bastava para ser feliz. Dara deixava-se estar na varanda nesse dia também, por horas; ladeada pelas flores que volta e meia ao sabor da suave brisa noturna faziam-lhe festinhas na pele enquanto cantarolava e dedilhava ao violão, a sua favorita de todas as mornas: “Isulada”.

Esquecida do resto do mundo que, aflito, sem sucesso buscava contactá-la para saber o motivo do atraso a comparecer num evento organizado em sua homenagem, serena e tranquila deixava-se adentrar pela noite ao sabor do momento. Manter-se-ia assim até quando, ensonada, resolveria enfim cair na cama e adormecia num sono inspirado pelo último sussurro da lua ao seu ouvido antes de se recolher.

Em menina acusavam-na de doida, sem juízo, irresponsável; mulher feita Dara era apelidada de projeto de escritora ou poetisa de meia tigela, quando não estava presente para se defender. Na sua presença, pelos mais compreensivos, era acusada de sonhadora; o que dava no mesmo porque como eles próprios reforçavam logo de seguida, ninguém jamais viu serem pagas as contas com sonhos e devaneios. E os que por alguma razão não teciam comentários alguns sobre a sua insistência nessa estória de sonhos, lia-lhes Dara as conjeturas em cada gesto, cada expressão mal disfarçada e a cada desabafo seu dos momentos de vulnerabilidade jogados contra ela nos de euforia. Ninguém parecia desconfiar ser da sua sensibilidade de poetisa a responsabilidade pela sua habilidade de ler o mundo ao redor. E menos ainda que, quanto mais se lhe expandia essa habilidade permitindo-lhe com cada vez mais profundidade ler o ser humano tal como é, mais desejava qual a mulata de B.Leza viver fechada; isolada numa gaiola qualquer fosse a cor. Contudo, não o podendo fazer nos dias de maior ápice de delírios poéticos fingindo ter de facto o poder de escolha, cingia-se ao que lhe diziam o brilho das estrelas; a lua quando cheia; o sol quando se punha e o cantar dos pássaros.

Cedo tivera de aprender não ser feita a vida apenas de coisas que lhe rasgavam os lábios num sorriso; e, apesar dos momentos de aflição pelas constantes tentativas de fazer de uma caixa cujo tamanho cabia menos do que a metade dos seus sonhos, a sua morada, resistiu. Apesar de ninguém nunca se ter importado poder Dara aos poucos ir morrendo por asfixia porque obrigada a caber num tamanho de outrem, mesmo quando por vezes se desanimava, como havia-lhe ensinado desde muito pequena a sua mãe agora estrela, Dara sempre resistiu. Sim; ela era sim, poetisa! Sabia-o no seu coração e na sua alma: isso lhe bastava. E, porque nunca cogitou desistir, não cabia em si de felicidade quando custando-lhe grande parte das suas economias, conseguiu enfim realizar o sonho de publicar o seu livro de poemas. Não deixou de sentir-se realizada mesmo tendo sido o comentário geral no seio dos familiares, parentes, amigos e conhecidos, haver ela finalmente perdido o último resquício do juízo que ainda lhe restava na cabeça; era o inevitável como, de resto, há muito se previa.

No entanto, algo deveras extraordinário aconteceu na sua vida quando se noticiou em toda a comunicação social, ter ganhado o seu livro de poemas um prémio internacional de poesia. Porque da noite para o dia, pela família foi declarada o orgulho da estirpe; conhecidos forçavam-se os mais íntimos dos amigos; parentes e amigos que para provarem-lhe diferentes dos demais pediam-lhe alguns dos seus poemas para lerem e nunca liam uma única estrofe, comovidos, declaravam-se os primeiros apreciadores da sua obra. Os vizinhos que, por ela passar horas embrenhada na sua escrita não participava na maioria dos convívios e nunca nas conversas de vizinhança consideravam-na uma esquisita, brindavam-lhe agora com o mais compreensivo dos sorrisos.

Antigos colegas que mal lhe falavam depois de terem-lhes tornado grandes os cargos que ocupavam, parabenizam-na nas redes sociais fazendo questão de partilhar pequenos trechos de histórias dos tempos de liceu e da universidade passados com ela. O cão da vizinha – a mais feroz das maldizentes – que, como se contagiado pela antipatia da dona para com ela ladrava sem parar quando ela lhe aparecia à frente, abanava agora quando a via freneticamente a cauda. E, coisa extraordinária, até os catos da beira da estrada da rua onde morava floresciam sem que tivesse caído uma única gota de chuva, a cada passo seu.

Deslumbrada com a repentina e intensa reverência esquecendo-se de todo o desdém, toda a indiferença que merecera pelos mesmos que agora porque premiada, juntavam-se para homenagear o seu talento, a sua arte; como se embriagada Dara aceitaria sujeitar-se àquela homenagem.

Chegado ao dia do jantar quando absorta em frente ao espelho terminando de se preparar para sair, dava-se conta à um clarão que da janela refletia no espelho haver chegado a maior das suas confidentes : a estrela maior e, aproximando-se para lhe falar via que também a lua havia chegado aguardando na companhia das estrelas pela sua presença na varanda, logo se esqueceria do mundo.

Ansiosa por contar-lhes das suas novas incertezas, inseguranças e dos poemas escolhidos para o seu próximo livro, tirava do armário uma garrafa de vinho, pegava o seu violão a um canto na sala e saía para a varanda; onde instalada entre os vasos de buganvílias e coroas de Cristo, começaria uma longa sessão de serenata e conversa. Só elas, suas amigas de todas as horas sabiam dos choros, das noites mal dormidas, dos rompantes de inspiração e dos bloqueios criativos; elas, as únicas que vibravam com o seu entusiasmo e conheciam toda a sua vida, dores, angústias. 

Noite alta vencida pelo sono, Dara se despedia; e, já na cama, sussurrar-lhe-ia a lua ao ouvido antes de estar completamente adormecida aquele que veria a ser o primeiro poema do seu segundo livro: hipocrisia.

E foi assim que, por falta de experiência nessas coisas de acolhida e valorização fora os de sempre, apagava-se-lhe por completo da memória o jantar de homenagem ao qual nunca haveria de comparecer.

¹ Trecho da morna “Isulada” de B.Leza.

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Cleo Garcia Freire

Cleo Garcia Freire

Sou uma amante da música e das letras e apaixonada pelos pequenos presentes da vida:
uma caneca de café quente; o cheiro do pão acabado de sair de forno; brisa do mar e
outras gotas de felicidade.

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