It takes two to tango

Uma vez fui passar férias a Barcelona. Aluguei um quarto numa casa de estudantes, na cidade vizinha de Badalona. A dona da casa apresentou-me a alguns amigos, um dos quais participava de uma coisa que não era bem dança, nem teatro, não exatamente expressão corporal nem nada que eu conhecesse antes, razão pela qual ele conseguiu convencer-me e ir experimentar.

A primeira dificuldade que tive foi que a aula era dada em catalão. Eu pensei que iria perceber, mas não captava quase nada. De qualquer forma, não era muito complicado: íamos fazer uns exercícios que consistiam em formarmos grupos de 5 pessoas. Iriamos experimentar as diferentes estações do ano: uma pessoa ficaria no meio, as outras quatro à volta e seguindo as indicações da instrutora, tocaríamos em quem estava no meio como se fôssemos o sol a aquecer-lhe a pele no verão, depois sopraríamos sobre ela como o vento do outono, com as pontas dos dedos imitaríamos as gotas de chuva do inverno e por assim em diante. Eu até estava a gostar um bocadinho, não era tão divertido como as aulas de teatro que já tinha tido, mas era algo diferente e as pessoas eram simpáticas.

 

Mas a meio desse fingir de estações, quando eu é que estava no meio, senti uma, duas, três vezes as mãos de um dos participantes, um homem na casa dos seus quarenta anos, a passar-me no peito, muito desnecessariamente, demasiadas vezes para ser apenas coincidência ou mau conhecimento da geografia feminina africana. Fiquei desconfortável, fiquei calada, a aula terminou e quando vínhamos para casa, o ajudante de instrutor que me tinha levado perguntou-me o que eu achara da aula e disse-lhe a verdade: que tinha sido boa até sentir que o quarentão estava passar das marcas comigo.

 

O instrutor perguntou-me então:
– Porque foi que não disseste nada?
– …
– Esta é se calhar, a grande lição que tinhas que aprender com esta aula: as pessoas só te fazem o que lhes permites que façam. Devias ter dito logo alguma coisa, devias ter-lhe pegado na mão e mostrado que não a querias aí.

 

Esta não é uma lição fácil de aprender, porque depois disso estive várias outras vezes em situações do género, em que era vítima da intromissão de outra pessoa e não reagi. Algumas vezes, foi preciso alguém de fora lembrar-me que não devo deixar que ninguém abuse de mim. E de há uns tempos para cá, uso muito uma frase em inglês para explicar a outras pessoas esse mesmo conceito, para lhes dizer que não devem permitir qualquer forma de abuso. A expressão é It takes two to tango. São precisas duas pessoas para dançar o tango. São precisas duas pessoas para que haja abuso: aquela que abusa e aquela que é abusada (ou às vezes, que se deixa abusar, como eu tantas vezes já deixei).

 

O abuso acontece de várias formas. Às vezes nem é voluntário: quando estava grávida, a minha médica pediu-me que passasse na maternidade para fazer uma CTG e mostrar-lhe os resultados. Fui lá à hora que ela me indicou, 9h da noite. Fiz a CTG e perguntei pela médica. Fui informada que ela estava lá em cima e que eu devia sentar-me e esperar. Sentei-me um bocadinho, mas era uma noite lenta, não havia quase ninguém à espera e eu não via movimento. Fui perguntar a uma auxiliar se fazia muito tempo que ela não vira a médica. Fazia, sim. Resolvi, de mim para mim, ir lá acima ver se me davam mais informações. Se ela estivesse a fazer uma cesariana, por exemplo, eu iria para casa, já que estava tão tarde. Mas lá em cima o que me disseram é que ela estava no quarto de repouso. E quando ela veio, tinha uma indisfarçável cara de sono. Ela viu-me o exame e mandou-me para casa. E pensei para mim mesma: eu, coitada não vou ser. Não vou ser a coitada ignorante que se senta lá em baixo, porque assim me indicaram, a esperar sem horizonte à vista, enquanto a médica de serviço dorme lá em cima, sem nem saber que tem gestantes à espera.

 

Já aconteceu de uma senhora querer monopolizar a conversa entre a minha mãe e eu, num café, estando ela numa outra mesa. Ela falou, falou, falou, nós as desta mesa com os pescoços tortos a olhar para ela. Quando trouxeram os nossos pedidos, ela calou-se, à espera. Mas assim que íamos começar a comer, ela pôs-se a falar de novo. Mas aí, eu estava mais em mim, porque lhe disse educadamente:


– A senhora desculpe, mas eu e a minha mãe já não nos vemos há muito tempo e temos coisas para falar.

 

Não estou a defender ser mal-educada. Mas levamos com muita coisa em nome da educação. Foi em nome da educação que uma vez deixei um primo da minha mãe sentar-me no colo dele, porque não me ocorria dizer que não, ficava mal.

 

Também ficava mal a uma amiga dizer ao hóspede que ele contribuísse com alguma coisa, já que estava na casa dela, e ele passou lá três semanas, a comer e a beber, sem levar uma única caixa de fósforos como contribuição.

 

Meus amigos, não me prolongo mais porque também não quero abusar de vocês. Mas lembrem-se, por favor: são precisos dois para dançar o tango!

 

 
 
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Eileen Almeida Barbosa

Eileen Almeida Barbosa

Escritora, intérprete e tradutora, já trabalhou no privado e no público, recebeu prémios literários, plantou árvores, escreveu livros, participou em antologias e pôs uma bela menina no mundo. Continua a escrever e a gostar do mar.

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