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Eis-me aqui, nove anos mais velha, a tentar responder a mais uma das perguntas desconcertantes que a minha filha me faz desde quando ainda não sabia o que era perguntar.
A resposta a esta pergunta filosófica ocorreu-me durante o Badju Kanekinha, que aconteceu há pouco menos de um mês. Sim, depois de séculos, arranjei ânimo e fui badjar ao som do Beto Dias e da Suzana Lubrano, que para mim são o casal-maravilha do zouk love cabo-verdiano. Vê-los no palco a cantarem as músicas que embalaram a minha adolescência e parte da minha juventude, para além de me fazerem recuar para um tempo “sab” que não volta mais, permitiu-me tomar consciência de que, afinal, a Vera adolescente e a Vera jovem continuam aqui comigo.
É que dancei (mesmo sem par) como se não houvesse mais ninguém naquela pista que não fosse eu. E fiz o que nós, daquele tempo, fazíamos: “tirei” um jovem rapaz para dançar. Não o conhecia e nem ele a mim e, durante os três minutos e cinquenta segundos que a música durou, eu fui a pintura e ele a moldura. Num dançar “dent de respeit”, sentimos todo o amor que a música “Ki Vida” transborda.
Depois do show ao vivo, começou a música do DJ: voltei a ter vinte e poucos anos e dancei “esquema”, “reggaeton” e “axé”. Enquanto balançava o esqueleto, a minha mente viajou pelas diferentes fases por que estes meus ossos de 50 anos já passaram, e um sorriso largo desenhou-se no meu rosto ao perceber que afinal posso estar, agora, mais rabugenta, com brancas nos cabelos e pregas no rosto, mas continuo a dançar e a sentir os meus momentos com a mesma alegria e despreocupação de quando eu era uma flor, sem rugas, de “pôr na peite”.
Antes de a minha filha nascer eu era assim: uma Vera que dançava com um completo estranho só pelo prazer de dançar, e que não tem receio de estar a pagar mico só porque se deixa levar pelo som animado de uma boa música.
Ao contrário daquilo que as normas sociais impõem às mulheres que se tornam mães, eu não me castrei enquanto pessoa depois que virei mãe: continuei a ser a Vera rebelde, divertida, fã de boa música, curiosa, de mente aberta, que gosta de dançar, e acrescentei a Vera mãe. A Vera mãe fez com que eu passasse a dosear alguns aspetos, mas a minha essência rebelde, divertida e dançarina continuou e continua por cá ainda.
A maternidade transformou-me, mas não mudou a minha essência. Assim como fui uma criança e uma adolescente curiosa, fiz questão de educar a minha filha para a curiosidade, para o questionar sempre. Tanto que ela nunca teve receio em fazer-me certas perguntas. E, na medida do possível, sempre as respondi. Procurei respondê-las sempre de forma a não parecer que estava a dar-lhe uma lição de moral.
É que a tendência é nos tornarmos moralistas à medida que vamos ficando mais velhos. Quem nunca usou um “na nha tempu” que atire a primeira crítica. Se envelhecer é um processo natural, amadurecer com ternura é uma obrigação por parte de quem a vida permite atualizar a idade a cada 365 dias. Por eu ter sido uma jovem rebelde, divertida, fã de boa música, curiosa, de mente aberta, que adorava dançar, conversar (até demais!) e, para muitos, chatérrima, sinto que devo a mim mesma um envelhecer com ternura.
A ternura permite-nos olhar para o nosso passado sem culpas e sem julgamentos. E, sem julgamentos, o mundo é um lugar muito bom para se estar e viver.
E é com ternura que respondo à pergunta que dá título a esta crónica: antes de nasceres, filha, a tua mãe não era muito diferente do que é hoje. A única diferença é que, com o teu nascimento, ela conheceu um tipo de amor que nem a sua imaginação fértil conseguiu dimensionar. Ah, e paciência… ela passou a conhecer o que é ter paciência. :)

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"







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