Mãe sem filtros

Sei que o mês das mães chegou ao fim, e que começou junho, o mês das crianças. E como elas, as crianças, são trazidas ao mundo, por elas, as mães, a crónica que vos trago é uma narração sem filtros da minha experiência como Mãe.

A minha experiência como mãe está dividida em três grandes momentos: a Gravidez, Parto e o Pós-parto.

A Gravidez: foram três meses tendo a sanita como melhor amiga devido aos enjoos matinais, “tardais”, “noitais” e “madrugadais”; três meses com uma pequena barriga, que eu pura e simplesmente ignorava, e mais três meses com uma barriga tamanho bola de futebol, um andar de pata e um calor infernal.

O Parto: este demorou dois dias e trinta minutos. Dois dias de internamento assistindo outras mulheres a entrarem aos berros na sala de parto, e a saírem com os rostos estafados e com os filhotes embrulhados ao colo, e trinta minutos com contrações e “faz força” e pronto. Nasceu!!!!!!!!!!!!

O Pós-parto: o pós-parto! Aí que começa toda essa aventura regada a muito folclore que é “ser mãe”. O meu pós-parto já vai em 15 anos e 9 meses! Confesso que não amei a minha filha enquanto ela estava na minha barriga. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa difícil de se deixar apaixonar. Não sou “Maria vai com as outras”. Tenho de conhecer a pessoa para me apegar a ela.

Ok, eu gostava de sentir as cambalhotas que a minha pequena dava no quentinho do útero, fiquei com o coração “piknitxim” quando ouvi a força com que bate o coração de um embrião com sete semanas, falava com ela quando me enfiava os pés na bexiga ou nos rins, mas só me apaixonei pelos 50 cm e 2500 gramas de gente, quando a colocaram no meu colo, e vi aqueles olhos expressivos, e a urgência como sugou aquela “gosma” que sai da mama de uma recém parida.

Quando tomei a decisão de ter a minha filha, pesei todos os prós e contras, fiz contas, e me preparei para tudo: noites mal dormidas, esperas intermináveis no hospital, festas de aniversário, trocar fraldas, ensinar a comer, ensinar a andar, aprender a dizer não, aprender a dizer “eu te amo” etc. e tal.

Mas, nada se compara com a realidade. A realidade é como aquele jogo “Batalha Naval”, em que tens de adivinhar a estratégia do teu inimigo, e assim acertar os seus navios e submarinos.

Educar uma criança é um jogo de tentativas, erros e acertos. Mas eu sou uma felizarda! Sabem porquê? Porque a minha filha não teve cólicas, o terror de qualquer recém parida, dormia sem problemas, com quinze dias de vida já mamava de três em três horas, e nos seus quase 16 anos de vida, só fomos parar às urgências da Pediatria por sete vezes. E numa dessas vezes ela não tinha nada!!! Só queria dar uma volta à 01h00 da madrugada, como bem me disse o pediatra de plantão.

Antes dela nascer, imaginava que a educaria com horários, régua e esquadro! Ledo engano! Bem que tento “enquadra-la”, mas os filhos parecem que já nascem com uma certa vontade própria, e o busílis da questão está em quereres realmente educar um ser humano, ou simplesmente “criar” um ser egoísta e egocêntrico.

Porque caros leitores, existe uma diferença abismal entre “educar um filho” e “criar um filho”. Criar um filho é basicamente alimentá-lo (com comida), vesti-lo, e lhe dar um tecto.

Já educar um filho é uma tese de pós-doutoramento, pois exige revisão de toda a matéria aprendida, aprofundamento do “o que quero para minha vida agora com um filho” e questionamentos profundos como “onde é que eu estava com a cabeça, quando não usei proteção?”

Ser mãe é lindo. Dizer que o filho é o máximo, que é estudioso, que respeita a todos, que dorme cedo, que não faz birras etc e tal é o que se espera de todas as mães! Agora, admitir que “quase se arrepende de o ser” quando a cria faz birras, é teimosa, tem habilidades de superman, ou quando acordar-te às oito horas da madrugada num domingo para irem para a Missa da Palavra, ou para o campeonato de Karaté, isso é ser uma Mãe MARAVILHA.

A mãe que nunca teve vontade de “vender o filho” (pelo menos durante algumas horas), para poder dormir até mais tarde, ou para poder ler sem ser interrompida, ou porque já não aguenta mais a sua cara de enfado de adolescente, não é Mãe.

Mãe é aquela que aceita sem problemas as alterações que a gravidez provocou no corpo e não culpa a filha ou filho, é aquela que promete deixar o filho de castigo até os 18 anos por este desrespeitar o professor, é aquela que entra em pânico quando se dá conta que, aquelas 2500 gramas de gente, já tem 1,65 metros, e já não depende dela para quase nada, é aquela que melhora como pessoa só para poder ser um modelo “mais ou menos bem amanhado a ser seguido”, é aquela que se calhar não deveria ter tido a filha, mas que não consegue imaginar-se no mundo sem a cria.

Sou uma mãe sozinha à semelhança de milhares por este mundo fora. Não é fácil o ser, quando realmente se é Mãe. Não é fácil porque tens de ser ao mesmo tempo, o doce e o amargo, aquela que mima e aquela que põe limites.

Ser mãe é realmente um mar de rosas: um mar de rosas multicoloridas e com espinhos, muitos espinhos. São esses espinhos que vão definir que tipo de mãe és, e que tipo de ser humano o teu filho será.

Ser mãe é nunca mais ter o coração 100% tranquilo. Claro que isso se aplica àquelas mulheres que o são, do verbo “ser e participar”. E segundo a minha filha, eu sou uma desse tipo de verbo.

 

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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