“Mais pelado que sovaco de estátua”

Vai parecer meio fora de timing, uma vez que a noticia bombou nas mídias faz mais ou menos duas semanas à data de escrita deste texto, mas afinal de contas este é um tipo de debate que não se faz em dois dias. Aqui, estou a referir-me à petição para a retirada da estátua de Diogo Gomes (1420-1500) no Plateau, coisa que, como bem podemos imaginar, gerou os mais dicotómicos burburinhos.

Neste exato momento que redijo este parágrafo, cerca de 1,975 assinaturas subscrevem à vontade de derrubada do monumento de ferro fundido, do escultor português Joaquim Correia, instalado no “bonito e romântico miradouro, no planalto da capital do país”. O documento, que se pode encontrar disponível com uma rápida googlada, é peremptório no seu posicionamento pela defesa da remoção do espólio monumental pro-esclavagista e colonial em Cabo Verde. Para além de delatar o perfil perverso do vulto edificado, implicado no tráfico de escravos, é veementemente extensivo aos bustos/estátuas de exploradores coloniais como Alexandre Albuquerque (Plateau), Serpa Pinto (Fogo), Sá da Bandeira, Diogo Afonso e Sá da Bandeira em São Vicente (Mindelo).

Este é o tipo de assunto perfeito para o jogo da batata quente, e é muito fácil cair nesse ping-pong de antagonismos, que tem se dado quase à força bruta. Qualquer coisa que se pareça com o exercício de cristalizar as multiperspectivas, de recolher as diferentes nuances para a realização de uma meta-analise e uma reflexão mais respirada, perdeu decerto o lugar no espectro do bate-boca intratextual das social media.

Nós já sabemos, pelo quanto nos permitem os estudos arqueológicos, que estátua é coisa que acompanhou praticamente todas civilizações e culturas desde que o Homem inventou de ser Homem, tanto é que a mais antiga data para mais de 30.000 mil anos. Do sagrado ao profano, essas formas erigidas sempre estiveram no domínio do simbólico antecedidas por motivações de reverencia, homenagem, heroificação ou culto uma figura-objeto fictício ou real. Nem é por acaso que a palavra ‘Monumento’, de etimologia latina (monumentum) diz respeito à’ memória, recordação, lembrança… a algo que se “destina a perpetuar a posteridade um vulto ou acontecimento”.

Estamos a ver, não é que se erguem estátuas do nada. As suas materializações não devem ser olhadas fora da conjuntura semântica que as localiza num dado espaço-tempo. E é clarividente que elas nos dizem muito mais sobre quem as mandou corporificar do que propriamente quem ou o que se vê representado. Elas possuem sim um cunho documental, temporal e sobretudo sóciopolítico. Elas trazem a narrativa de perfil ideológico e do projeto de um coletivo dirigente…

Então, sendo a estátua um património publico, sob a tutela do Estado, é óbvio que cabe a ele a sua manutenção e preservação. Mas aqui eu pergunto – manter a presença inanimada de figuras comprovadamente imorais, não será prosseguir a natureza simbólica que elas patenteiam e materializam? Preservar a estátua de um racista, genocida ou escravocrata, não é manutenção equivocada de um recorte episódico reprovável? E posto assim, seria a higienização dos espaços públicos a mais acertada alternativa?

Dá que pensar… Destruir uma estátua é apagar o estudo História ou é fazer História da sua destruição? Estaríamos a apagar a memória ou estaríamos a construir uma nova? Se os monumentos representam a programação de uma memoria coletiva, qual é a memória que temos vindo a preservar? Seria mais interessante fazer uma substituição iconoclasta? Erguer novos símbolos? Recontar o passado de outra perspetiva? Ou seria melhor mantê-las e deixa-las devidamente contextualizadas, como por exemplo a Alemanha fez com os campos de concentração? Seria mais interessante retira-los e coloca-los num espolio museológico para que sejam visitados como símbolos de um passado a não ser repetido?

Dá que pensar… Destruir uma estátua é apagar o estudo História ou é fazer História da sua destruição?

Não sei vocês, mas para mim uma petição desta natureza parece-me refletir o amadurecimento e uma mudança da consciência publica. São evidencias indubitáveis de que um novo corpo social esta se formando e represpectivando à sua existência. A demanda de poderes públicos que catalisam novas vontades, que não compactuam mais coma materialização de figuras malfazentes são sintomas contemporâneo de revisionismo identitário. Legítimos e imprescindíveis!

E foi isso. Essas foram as questões que orientaram as minhas reflexões. Resta-me por fim dizer, que deixar este quesito em águas de bacalhau vai contar tudo sobre quem afinal Somos e aonde é que vamos parar daqui a nada…

 

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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