Mamaquinha, uma das Marias da minha Vida

Estamos em maio, o mês delas, das Mães, mês das várias Marias desse mundo de Deus. Há uns poucos anos escrevi estas linhas, em jeito de homenagem a uma grande Maria da minha vida. Uma Maria que foi minha tia, a irmã querida da minha mãe, e uma Mãezona para os doze filhos que teve. Uma mulher que amou os seus, até o último dia da sua vida terrena: Mamaquinha.

Diziam que Maria não gostava de homens. Não sei se isso queria dizer que ela era tímida, ou homossexual. Era então os anos 50 do século passado.

Morena, de olhos amendoados, pele lisa curtida pelo sol, e o corpo esculpido pelas ladeiras e hortas de Pico Agudo, Maria despertou o desejo daquele homem.

Filha de um pai às direitas, negou as investidas e por conta disso foi “tomada à força”. Viu seu intocado corpo, invadida pelo estranho.

Da invasão resultou a filha que não quis e não pediu, e foi assim nas outras 11 vezes que engravidou e deu à luz. Das 12 invasões, viu duas serem levadas ainda bebés, pelas mazelas dos tempos difíceis.

Recém-parida, o “pau ke ma bô ê mau” levou-lhe o marido. Aquele “maline” que bastas vezes violentou-a e massacrou seu corpo cansado. Chorou duas “guizas” de obrigação, e todas as outras foram de alívio. Sepultada a razão do inferno em que viveu por quase três décadas, tratou de encaminhar os filhos.

“Rija” na canela, batalhou para criar e educar os dez filhos, que apesar de serem resultados da violência por ela sofrida, amou e cuidou.

A morte, como que para lhe lembrar, que a felicidade não é para todos, levou-lhe, de forma estúpida e com escassos meses de diferença, a linda Bia, menina de cabelos longos e sorriso doce, e o Toi, o rapagão que apesar de ser a cara do maldito, tinha o coração de manteiga da mãe. Acharam que ela ia enlouquecer. Mas só morreu um pouco! E foi morrendo um pouco a cada dia.

Aos 80 anos de uma vida dura e sofrida, Maria está doente. Sente que o tempo que lhe resta é curto. Apesar da fraqueza das pernas, que lhe dificultam o andar, a cabeça está lúcida, e é com um misto de amor incondicional e revolta, que ela segura a mão da sobrinha e diz: minha sobrinha, não permitas nunca, que homem nenhum abuse de ti.

Ao ouvi-la, a sobrinha vê no fundo daqueles olhos, tão iguais aos da mãe, que Maria queria ter lutado mais, queria ter sofrido menos e ter amado.
Nenhuma Maria deveria completar oito décadas de vida, sem amar…. sem ser amada….

 

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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