Memento mori … ou a crise dos 30

Pode até ser coisa da minha cabeça, mas a julgar pela quantidade de situações cabeludas que tenho coletado, e pela frequência desmedida de vezes que os meus parafusos estão a soltar-se, tenho sido levado a crer que, chegou a minha hora, e que fui pego, enfim, pela tal crise dos 30.

Vejam bem: de acordo com o último dos estudos, a esperança média de vida de um cabo-verdiano barela é de 69,9 – motivo para eu ter espasmos e histerias matemáticas, e constatar que, às tantas, estou (quase) a meio caminho de expirar.

Um pouco de drama, e um pouco de espera aí. É a altura ideal para a reflexão paralelística do copo meio vazio ou meio cheio, muito embora a vontade mesmo é de beber a água e matar a sede. Ding-Dong– a piração começa, puxa-se o bloquinho e as perguntas jorram. Satre me valha porque, nestas horas, o café das duas da tarde, acelera-me o existencialismo. Um cookie não vai atravessar-me a goela. Esperemos nós, pelo menos até ao fim do texto.

Quem veio primeiro a galinha ou o ovo, porque o arco-íris tem 7 cores, quem inventou a caneta Bic e porque é que o atendedor tem calças jeans rasgadas no joelho, coisas assim. Simultaneamente fatigáveis. Não sei respostas para coisas tão simples como por que é que o ser humano tem 5 dedos na mão, imagina se eu vou saber o propósito da vida. Há dias que nem sei a que horas ando, e quando olho para as coisas é como se elas me olhassem, sabem? Um pouco sobrenatural, eu bem sei. E nada, nem um pouco mesmo, de ansiedade compulsiva. Nada mesmo, eu juuuuuuuuro.

Eu que fui para Humanística, nunca pensei passar os dias à la contabilista a tentar entender afinal o que foi que eu fiz da vida e o que ela fez de mim. Eu usei walkman, gravei novela por cima da cassete dos desenhos animados, joguei berlinde e telefone estragado, e tive experiências de parentalidade com o tamagoshi. Sou ‘Millennial’, como todo o direito a sê-lo, ouviram? Com todo o direito a sê-lo! Todavia tudo isso não passam de esfumadas lembranças. Um pouco como o fundo de uma bolsa esburacada.

Ah, não vou mentir, estou mesmo a sério numa fase de profundas angústias e um descolamento de tudo enquanto. Sinto-me mesmo a rasgar por dentro. Como se não coubesse mais em mim, e não é só figura de linguagem. Em momentos como esse, sinto o convite para o desaceleramento e para uma postura mais contemplativa. Ajuda bastante sair e contemplar um casal de passarinhos a dar bicadas na chaminé do prédio descolorido. Ou sentar-se num café aleatório para um cafezinho, ou dois. Ou três. Ó se faz favor, vem-me aí mais um!

Resoluções! Urgem as resoluções.! É isso que significa ser adulto ou não é? Tomar conta do raio da tua vida. Fim de ciclo camarada, faxina aí a vida toda e bora colocar as coisas a jeito, como se fosse tão fácil empacotar três décadas de existência em meses. Dá até graça.

Sabem que mais? Decidi fazer uma coisa que foi um Deus me livre a vida toda. É, mesmo! Resolvi fazer uma tattoo. I Know, right? A sessão está marcada às 19h30. Desta água eu não beberia. Mas isso era eu antes dos 30. E agora? Agora eu não sei, e interessa-me não saber. Interessa-me que haja um pouco espaço para os mistérios.

Então eu tatuarei – Memento Mori. No meu pulso. “Lembra-te de que vais morrer”. Não para que eu assine a fatalidade, mas muito mais para que eu viva e reviva a cada manha e possa encontrar-me comigo mesmo a cada vez que eu precisar de me lembrar que é uma bênção! É uma bênção poder estar vivo! E é bom que eu tenha uma cábula para me ajudar a lembrar disso.

A conta, garçon. A conta por favor. E o cookie, quero embrulhar por favor. Para comer mais logo. Ou amanhã.

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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