Memórias de uma mãe perfeita

Uma crónica de Vandrea Monteiro.

A pensar o que escrever para este mês que carrega a maternidade na sua essência, este mês que me trouxe à vida, à luz, encontrei este desabafo que, por segundos, sugam-me lágrimas, arrepiam-me o corpo. 6 anos depois, este texto, guardado na memória do meu computador,e em todo o meu corpo, é símbolo de um crescimento enorme e uma consciência de que a exaustão pode ser confundida com a depressão… e que ela pode fazer nascer, como uma semente mal sentida, a depressão.

Ainda, a certeza de que as mães têm vergonha de desabafar ao mundo as suas dores, frustrações, porque afinal, “bu ka mandadu pari”.

….

A minha filha acabou de dormir. Hoje o dia foi cheio. Está doente e só quer a mamã. A senhora desconhecida, que vende à beira da estrada, tem sido uma amiga, uma mãe. Às vezes, vou lá ter, a fingir precisar de comprar frutas, e conversamos um bocadinho. Há umas horas, pediu-me que deixasse a bebé consigo e tirasse minutos para descansar. Agradeci. Não recusei. Saí de lá a correr e dei um toque na casa. O papá viajou e sobrou apenas a mamã. Longe da família e dos amigos, num sítio onde a minha amiga é a senhora que vende na rua. 

A minha filha acabou de dormir. Aproveito para comer, com a televisão ligada, enquanto escrevo duas linhas, como desabafo. Escrever sempre foi, desde a minha infância, a minha melhor companhia.

E nesses segundos em que dorme a minha filha, peço-vos: façam visitas às mães. Principalmente, às mães desempregadas. Às vezes, precisamos apenas de alguém que segure o bebé, para respirarmos. Às vezes, precisamos apenas de conversar, na verdade, simplesmente de ver alguém.

Quando nasce uma criança, mudam as relações. As amizades. Os convívios. E no caso das mães, muda tudo. Toda uma vida. 

Vejo em mim os quilos que se foram nestes 13 meses de correrias, de noites dormidas nas camas dos hospitais, de frequente visitas ao hospital, de repetidos antibióticos que vivem hoje nos dentes da minha filha, nestes dentes malditos que sugam a minha bebé. Vejo em mim esta mulher que me magoa. Feia, sem brilho, sem luz. Por vezes, deprimida, “disgostadu”. 

Dizem que tudo passa!

Claro que sim. Mas até passar tudo, a mãe sofre, engole, chora pelos cantos, corta o cabelo… faz de tudo para se rever. Reaver, encontrar-se. Reencontrar-se. 

A minha filha acabou de dormir. Aproveito para escrever, desabafar. 

As mães apenas precisam de amigos. Pessoas que compreendam as nossas falhas, as nossas ausências. O nosso novo eu. Pessoas…

Pronto, ela acordou. E a mãe sai a correr, com o prato ainda cheio e os olhos plenos de lágrimas. 

….

Queria encontrar formas para fechar este texto, mas não, pessoas é o nome que nos pariu a todos.

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

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Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

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