Meu avô e a importância de boas memórias

Ultimamente dou comigo constantemente a pensar no meu avô materno e sou preenchida por uma sensação de muito amor e orgulho.

Ele faleceu em março de 2020 e ficou em mim pelos momentos que partilhámos e pelo que acredito ser a maior herança que me deixou: ser gentil com o próximo.

O meu avô foi um homem calmo, ponderado, de fácil e fino trato com todos aqueles com que interagia, sempre com uma palavra amiga e disponível para ajudar. Contador de estórias e “partioso”, sempre tinha algo para nos contar e divertir, muitas vezes inventado naquele momento.

Quando era ainda pequena (5/6 anos ou menos) cabia a mim a tarefa de ir apanhar os seus chinelos assim que ele chegasse à casa no final do dia. Tínhamos a nossa rotina: eu corria a ir buscar os chinelos que ficavam debaixo da casa, trazia-os, desapertava os atacadores dos sapatos, ele tirava as meias e eu entregava os chinelos. Lembro-me dos seus pés macios e quentes, ainda consigo sentir o calor que deles emanava, parece que foi ontem e já se passaram mais de 30 anos.

Coube a ele a tarefa de extrair o meu primeiro dente de leite, eu cheia de medo (sempre fui muito medrosa) e ele com a sua voz calma a explicar-me o que iria fazer com o fio de linha que tinha na mão. Assegurou-me que caso eu sentisse alguma dor que devia apertar com força o seu braço e que ele pararia, pois não me queria causar nenhuma dor. E numa fração se segundos arrancou-me o dente de leite e eu a reclamar que lhe tinha apertado o braço e que ele não tinha cumprido com o prometido. Ao que me respondeu que com a sua concentração em extrair-me o dente não sentiu o meu apertão.

Lembro-me de já na minha juventude, 17 anos, ele me emprestar o seu chapéu de veludo preto para que eu pudesse ir vestida de homem para uma festa de carnaval.

São tantas e tantas memórias do meu avô, o momento em que fui despedir-me dele porque iria estudar fora do país, sem saber que só nos veríamos largos anos depois porque ele entretanto foi residir nos Estados Unidos da América.

Os momentos passados, os ensinamentos transmitidos fizeram toda a diferença na pessoa que sou hoje. Tanto pela influência direta dele como da minha mãe e dos meus tios, seus filhos, que punham e põem em prática o que aprenderam com o pai.

Sinto-me orgulhosa de saber que pude crescer e conviver com um homem de bom coração, trabalhador e que soube amar e cuidar da sua família.

Acredito que as lembranças dele têm sido recorrentes pelo fato de sentir que neste mundo em que vivemos nos faltam bons exemplos e figuras que com a sua postura tranquila e gentil de encararem a vida nos ensinaram a ser e a fazer o correto.

Sou afortunada por ter tido desde tenra idade exemplos de que a cordialidade, o colocar-se no lugar do outro fazem toda a diferença e que pequenos gestos de gentileza podem conseguir milagres.

As minhas filhas não se vão recordar do meu avô, só terão as fotos e as estórias que irei contar sobre o que vivemos juntos. Ao fazer isso mantenho o meu avó vivo, porque aqueles que vivem em nós nunca morrem!

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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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