Mindelo Urbano – O filme

Imaginem que por razões extraordinárias, o Cine-Eden Park reabria as suas portas, para exibir, numa única noite, um filme excecional e surpreendente. O “Mindelo Urbano”, que mostraria, primeiro em imagens a preto e branco, depois a cores, à medida que se avançasse nos anos, como era a cidade antes mesmo de o ser.

A protagonista seria o próprio burgo e o filme mostraria as evoluções, de quando pouco mais era que um conjunto de barracões, até a nossa era, em que se deteria, com maior vagar, só para o deleite dos espetadores, nas imagens que ainda chegámos a ver com os nossos olhos mas que também já não existem ou que já estão alteradas. Como a do Hotel Porto Grande da década de 80, que tinha uma esplanada ao nível do solo, com mesas e cadeiras de ferro e um muro escuro. Falo do tempo em que íamos à Praça com os papás comer o algodão doce do Picknik. O nosso pior medo? Que os “piratinhas” nos arrebatassem essa coisa pegajosa e deliciosa. Já muita gente ainda se deve lembrar é da época em que ainda havia o Grémio.

O filme começaria, claro, pelo primeiro edifício digno desse nome, construído em Mindelo. E praticamente toda a gente sabe qual foi. A 24 de junho de 1853, quem estivesse no Largo dos Paços do Concelho – hoje em dia Pracinha d’Igreja – e olhasse para o monte que dominava a povoação – que seria vila 5 anos depois – veria, com uma bandeira orgulhosamente hasteada, o Fortim d’El Rei. Com as suas 7 bocas de fogo que protegeriam a Baía do Porto Grande em caso de um ataque de piratas. Depois disso, já foi posto semafórico e prisão e embora esteja em ruínas (escrito em 2006), podemos ainda ver as argolas e as correntes. Nesta parte do filme, apareceriam imagens dos presos com a transparência de marcas d’água e ficaria a sugestão dos gritos, suores e sangue dos que tiveram a má sorte de por lá passar.

Felizmente para nós e para o realizador deste filme-maravilha, muitos dos edifícios construídos ainda em mil-oitocentos-e-troca-o-passo existem, tal como foram erguidos. O edifício da Câmara Municipal, por exemplo, está igual, desde 1873. A praça Dom Luiz, que foi agora reconstruída, é também desse tempo e muita tinta rolou quando decretaram que seria destruída para, em seu lugar se erigir… um depósito de carvão. (Aqui nesta parte, o realizador filma um relógio a dar para a frente, vertiginosamente, passando anos e décadas e até um século, para vir parar ao ano 2000 e pouco, em que no meio de uma barafunda terrível, se vê, no mesmo sítio… o Porão, cheio de gente, vestida de forma peculiar, a pular e a gritar “Pove de São Vicente oli nôs”. E depois, voltando atrás numa montagem digna de um Óscar, vê-se toda a evolução desse armazém até à sua “implosão” e a construção da nova Praça Dom Luiz, ao mesmo tempo que, em pano de fundo, se vê a Câmara Municipal a mudar de cor e, logo atrás, a evolução da Praça Baltasar Lopes da Silva, antes um largo ao lado do qual havia a primeira pocilga da cidade, depois uma praça com um quiosque, depois largo comercial, depois mercado livre, conhecido por “Tiosque” ou “Quiosque”, depois uma natureza morta cheia de árvores lambidas pelo fogo e depois uma bonita pracinha onde nunca se vê ninguém.

Uma outra sequência de imagens muito interessantes do filme seria a da evolução da nossa Praça Nova e da construção dos edifícios à sua volta, na altura, a maior parte pertencente a ingleses. Assim, numa projeção a três dimensões tal como as fazem as imobiliárias hoje em dia, veríamos crescer, como cogumelos, as casas e prédios a que tanto já nos habituamos. O edifício da Telecom, por exemplo, que já estava pronto em 1910, funcionou como residência para os empregados do Telégrafo que eram solteiros e depois foi Clube Inglês e Hospital. As obras das casas do lado dos Drs. Aníbal e Fonseca foram aprovadas ainda na década de 30 do século passado e as que ficam mais perto do Centro Nacional de Artesanato são ainda mais antigas. Sofreram modificações e reconstruções, claro, nomeadamente a construção de uma proteção de cimento, onde nos escondíamos quando estávamos na Praça e começava a chover. Quando os espectadores veem as imagens do Centro de Artesanato e do Cinema Eden-Park a ficarem prontos aplaudem de pé, emocionados, congratulando-se por o filme só mostrar imagens do passado e não do que poderá vir a ser do Eden-Park mais uns tempos. Já o Hotel Porto Grande é muito mais recente, data da década de 60.

Muita gente ficaria surpreendida com as imagens do passado de muitas zonas, como o da Praça Estrela, que era uma salina, foi cemitério, campo desportivo e hoje em dia é praça e mercado e serve para testar as propriedades anfíbias dos nossos carros, quando chove.

O Liceu Velho existe desde há dois séculos (dá um prazer especial falar em termos de séculos…) e antes de por lá andarem estudantes de bata a riscar as paredes, andaram militares (que se calhar até teriam gostado de as riscar) e foi residência do Governador. O hospital, antes de ser no Hospital Velho, chegou a funcionar também
neste edifício. E o Hospital Velho já está connosco desde 1901.
E na sequência das imagens de escolas, vêem-se os edifícios onde funcionou o Ano Zero e hoje em dia, o ISCEE, e que foram casas do telégrafo. Já existiam em 1910 e parecem-se com qual outro? Com o da Telecom…

Mas este filme também tem suspense. Com a banda sonora roubada a um filme de Hitchcock, aparece a encher o ecrã, uma senhora muito antiga: a Igreja da Nossa Senhora da Luz. Nas imagens que lhe são dedicadas, vê-se uma sucessão de paredes a serem erguidas e descidas, de sacristias a aparecerem e a desaparecerem, de obras a começarem e a darem para trás. Isso porque os documentos relativos à sua construção assim o dão a entender. Ao contrário dos outros edifícios cuja história se conhece bem, em relação à Igreja não há respostas prontas quanto à data em que foi construída e relatos feitos em diferentes períodos dão indicações de “as obras já terminaram” as obras vão começar”, “as obras estão em curso”… um mistério verdadeiramente tenebroso, com que o filme termina abruptamente, género Kill Bill e nos deixa todos à espera da sequela. Certamente somente em DVD, porque até lá, não haverá Cinema na ilha…

(Informações sobre os edifícios retiradas de “Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo, Ed. Do Fundo de Desenvolvimento Nacional, 1984)

Eileen Almeida Barbosa
Outubro de 2006

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Eileen Almeida Barbosa

Eileen Almeida Barbosa

Escritora, intérprete e tradutora, já trabalhou no privado e no público, recebeu prémios literários, plantou árvores, escreveu livros, participou em antologias e pôs uma menina e um menino no mundo. Continua a escrever e a gostar do mar.

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