Mulheres amam-se sim, apenas esquecem-se disso… muitas vezes

Andamos doentinhos há um tempo. Em tempos de muito calor, dói o corpo do bebé e sofre a alma da mãe. Infindáveis fraldas sujas, roupas de cama trocadas na madrugada. Maminha, muita maminha.

Maminha toda a noite. Maminha sempre. Maminha nos segundos em que me entrego ao sofá… Diriam os mais velhos que a maminha perdeu o respeito. Cá entre nós, tenho os mamilos em brasa. Shiuuu! Mas o corpo dele tem encontrado forças no meu. Alimenta-se em mim. Claro que sim! Temos conversado sobre esta exaustão que agora me grita, através desta gripe que já tem nome e destes hematomas silenciosos…

Voltamos ao hospital.

Sabes aquele dia em que a alma enfraquece? Que uma palavra faz acordar a criança pequena que nos habita? Foi ontem.

Estava a conversar com a minha mãe, quando as meninas começaram a chegar. Umas de branco, outras de azul, com flores rosa, trazendo a leveza de apenas existir… Uma a uma. Quando dei por mim, estava rodeada de vozes mansas que nos contam palavras de experiência, de conforto; soluções que podem funcionar, despidas de basofaria. Isentas do sei mais que tu.

Chorei.
Chorei o acolhimento. Chorei a intimidade. Tal o filho quando abraça a mãe após horas de separação.

Mulheres parem. Esta dor, tão nossa, não nos pode tornar inimigas. A mulher que pariu sabe o medo que grita, conhece o cheiro profundo do amor que dói. A mulher que pariu, gere a casa, uma profissão, a agenda dos filhos não pode não gostar da sua companheira de luta. As lutas não se fazem sozinhas.

Mulheres amam-se sim, apenas esquecem-se disso… muitas vezes. E há que gritar isso.

Oh bela dama, quem sois tu para odiar o corpo que se assemelha ao teu?
Oh bela dama, quem sois tu para não amar e compreender a alma que berra os teus silêncios?
Oh bela dama, em todas vós grita a mesma dor, ama-se na mesma intensidade. E amor intenso dói porque carrega ele o medo.
Oh bela dama, sois fêmia e apenas isso deveria ser suficiente!

Neste outubro rosa, relembremos ao homem a mulher que lhe pariu. Que lhe sustenta. A mulher que necessita de atenção, da magia no “deixa estar que eu trato disto”, “não te preocupes com isto”.

Exaustão adoece. Exaustão mata. Exaustão é cancerígeno. Alastra-se aos órgãos, consome a mente.

Este mundo precisa de laço rosa que lhe aconchega. Esmaga o ego. Rodeia o coração.

Este mundo precisa de dar as mãos. Ah se soubéssemos a empatia como cura para tantos males… tantas doenças.

Permitam-me: o AMOR é de todas as cores. Na verdade, sequer tem ele cor alguma.

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

Outros artigos