Não se apagam os ensinamentos que nos constroem

Este mês é do livro, da literatura e do professor. No mesmo mês. Nada neste universo é por acaso. O livro é o mundo em nós. A construção de conhecimento e de sabedoria. Alguém tem de plantá-los. Quem será?
Imagem de Freepik

No outro dia, encontrei a Madame Silva a passear por Palmarejo. Bonita, sorriso grande, disse-me estar a gozar a sua reforma. Em plena forma.

Madame Silva foi minha professora de língua francesa, na escola secundária do Palmarejo. Hoje, largos anos depois, não a consigo chamar pelo nome próprio. Somos agora duas mulheres feitas e donas de si. Mas jamais seremos iguais.

Madame Silva foi minha professora e para sempre o será. Professor é eterno. Não se apagam os ensinamentos que nos constroem, tornam-nos homens e profissionais.

Naquele dia, passei a noite a reviver o meu tempo do liceu. Assim como a Madame Silva, veio-me à alma a professora Isabel, a professora Rita… entre tantas mulheres nas quais espelhei-me e sonhei ser.

Quando pequena, desenhei para o meu futuro a profissão de professora … a nobreza desta arte é palpável. Os resultados são diários. Queremos sempre ser as nossas referências.

Decidida, aos 10 anos, ainda a aprender a leitura bem soletrada, invadi a casa da minha mamã Julieta e, dos pedaços de madeira que descansavam o seu corpo à noite, improvisei um quadro. Eram tábuas a mais.
Perfeito. Estava tudo pronto.

Encarnei em mim a professora Mafalda, com a sua rigidez amável e catei os meus alunos, independentemente da idade que nos separava. Nada nasce do nada. Tudo é plantado. Na terra ou no corpo.

A professora Vitalina, apesar da minha fama de tagarela, escolhia-me, quase sempre, para partilhar apontamentos no quadro negro, outrora símbolo maior do templo de ensino. Sempre gostei dos traços que nascem do giz branco. É tudo muito lindo. Perfeito.

Bazofiava a minha caligrafia ou, genuinamente, a minha “letra de professora”. Achava-me, assim, provida das qualidades necessárias. Pelo menos, as básicas. Pronto. Sou uma professora.

Enchia-me de gana e de brio ser alguém tão grande. Tão sábio. No tempo em que a palavra do professor se disputava com a dos pais. Ousava alguém dizer que o meu professor mentia. E mente alguém que sabe o mundo tão bem?

Os meus professores serão para sempre os meus heróis; sem capas, sabemos disso, cuja farda vem sendo despida pelo caminho. Noutros arrancada. Outros nunca a chegam a vestir. Ser professor é responsabilidade. É ter o mundo na ponta da língua, na ponta dos dedos.

Hoje, sou mãe de uma criança de 5 anos, que por vezes chega a reclamar que levou uma palmada ou uma palavra mais grossa; tiro-lhe sempre o poder. Na minha ausência, manda o professor. Se for ditadura, que assim seja. A educação vem do berço. De casa. A escola apenas complementa. O professor não pode ter medo de educar. De dar palmadas, caso seja necessário. Por favor, uma palmada sempre educou e nunca matou meninos. Não estamos aqui a conjugar o verbo maltratar. Atenção!

Os pais lutam pelo futuro dos filhos? E os professores? Estes fazem o quê?
Este mês é do livro, da literatura e do professor. No mesmo mês. Nada neste universo é por acaso. O livro é o mundo em nós. A construção de conhecimento e de sabedoria. Alguém tem de plantá-lo. Quem será?

 

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

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Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

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