Natureza em ebulição – Malthus tinha razão?

Estamos a viver uma era extremamente perigosa para a espécie humana, em todos os sentidos, com o próprio planeta, já esgotado, a revoltar-se contra nós. Tudo isso é consequência do apetite voraz do homem, que consome tudo o quanto de recursos há na Terra, desflorestando, poluindo, envenenando e dizimando espécies, incluindo o seu próprio semelhante.

Tomas Malthus (1766-1834), economista inglês formulador dos ideais que vieram dar origem ao Malthusianismo, não obstante o seu ponto de vista egocêntrico e discriminatório, tinha razão ao sugerir que o crescimento exponencial da população acabaria superando a capacidade do nosso planeta de sustentá-la, originando fome, pandemias e outros eventos catastróficos. 

Ao sugerir que a desigualdade entre os seres humanos era inevitável e que se todos beneficiassem da prosperidade, tal conduziria a um aumento insustentável da população, Malthus defendia soluções controversas como a guerra e as doenças, enquanto meios de controlo do crescimento dos mais desfavorecidos. Ou seja, para Malthus os mais pobres deveriam ser “sacrificados”, para garantir a sustentabilidade dos recursos naturais e o bem-estar da classe média. 

Desde o advento da Revolução Industrial, que resultou na aplicação da inovação tecnológica na indústria e nos transportes, que temos assistido a uma melhoria significativa das condições de vida das populações. As fontes de energia, carvão mineral, gás natural, petróleo e o alternativo nuclear, durante muitos anos, têm conseguido manter as fábricas em constante funcionamento, transformando as matérias-primas em produtos acabados que alimentam uma população que cresce em progressão geométrica. 

Ainda que a generalização da revolução industrial, agrícola e comercial tenha resultado numa maior disponibilidade de produtos e serviços e, por sorte, a devastação pela fome não se tenha concretizado, hoje, quase dois séculos depois, podemos dizer que, em parte, Malthus estava certo quando formulou a sua “profecia apocalíptica” a propósito da população. A rápida e incontrolável progressão das catástrofes naturais, alterações climáticas e aquecimento global parece conduzir a humanidade para um futuro de escassez dos recursos mais essenciais à vida na Terra.  

Os recursos que temos vindo a explorar sem limites e racionalidade, sem nunca terem deixado de ser escassos, aproximam-se dos níveis de esgotamento. Se já é uma preocupação saber isso, mais inquietante é saber que muitos dos recursos naturais não se repõem e, mesmo para aqueles para os quais existe alguma capacidade de reposição, o grave desequilíbrio reinante no planeta impede uma intervenção coordenada nesse sentido. Devido a interesses opostos, enquanto algumas vozes, por exemplo, se erguem a favor da reflorestação, outras continuam a defender a exploração intensiva dos já poucos pulmões existentes, como é o caso da maior floresta tropical do mundo, a Amazónia.

Simplesmente, não existe vontade para mudar o curso atual do planeta, para preservar os recursos hídricos e florestais e reduzir as emissões de carbono. Abrandar o consumo! Por um lado, muitos dos países desenvolvidos, que durante muitos anos foram os principais emissores de gases com efeito estufa, ainda não querem pôr de lado o modelo de desenvolvimento que se alimenta da exploração intensiva de recursos naturais. Por outro lado, os mais pobres só pretendem adotar modelos de transição energética quando alcançarem o status de desenvolvimento ou, antes, apenas se forem os mais desenvolvidos a financiá-los. 

Perante à evolução climática, este impasse faz-nos lembrar o Dilema do Prisioneiro, um caso particular da Teoria dos Jogos que demonstra que, às vezes, a melhor opção individual poderá prejudicar o coletivo. E, parece que Malthus tinha razão, existe uma contínua e crescente pressão populacional sobre o planeta e seus recursos. Ainda que a Revolução Industrial tenha afastado, por muito tempo, o mau presságio de fome e perecimento demográfico, hoje a evolução climática nos faz recordar as premissas Malthusianas. E não é que são sobretudo os mais desfavorecidos quem está a sofrer na pele as consequências das alterações climáticas. Que injustiça!

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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