Ninguém nasce pronto

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Ninguém nasce pronto

A frase que dá título à crónica deste mês foi a escolhida para frase do dia de hoje e momento de reflexão. Partilhei com amigos, como faço normalmente e um comentário que recebi foi: estive a pensar algo parecido com a frase esta manhã e pensei porque não chegamos ao mundo com um manual, que consultaríamos sempre que precisássemos. A minha resposta foi: com o manual perde-se a beleza da coisa.
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Após esse diálogo, quase automaticamente dei por mim a pensar: é este o tema da próxima crónica. E eis-me aqui, na sequência, a escrever estas linhas, com o coração animado que é como me gosto de sentir para me decidir a colocar por escrito as minhas reflexões.

Quando partilhei a frase do dia, ninguém nasce pronto, pensei para comigo que ela apela à redescoberta e às inúmeras possibilidades que se nos abrem quando a interiorizamos. Ao colocarmos bem fundo em nós que o pronto é resultado da caminhada conseguimos abandonar as muitas desculpas que damos a nós mesmos quando queremos começar algo, seja a nível pessoal, familiar ou profissional.

Já tinha abordado num outro texto meu que o nosso cérebro é mestre em nos sabotar por ser mais confortável para ele manter a rotina das nossas ações e reações. Abordei também que as ações que se tornam rotineiras permitem uma vida mais tranquila e aprazível pois nos liberta das ‘milhentas’ pequenas decisões que vamos tomando no dia a dia sem nos darmos conta. A rotina permite a vida, contudo, pode nos cortar as pernas quando queremos fazer algo novo e diferente do habitual. Aqui entra a necessidade de conscientemente adotarmos condutas que apaguem do cérebro a rotina anterior e implementem a nova que queremos ou precisamos.

Entra assim a intencionalidade da nossa ação, a necessidade de termos claramente definida as mudanças que pretendemos implementar e delinear um plano para atingir o resultado pretendido. E entra também a importância vital de entendermos que não nascemos prontos. Que somos um trabalho em progresso, que o movimento (o fato de nos mexermos) é o impulso necessário para irmos dando o passo seguinte.

Muitas vezes somos bloqueados pela convicção de que precisamos disto ou daquilo para começarmos a mudança, que precisamos ter todas as respostas ou todas as soluções para os problemas que irão surgir mais à frente no percurso e esquecemos de que o mais importante já temos, a decisão da mudança.

Entendo que essa insegurança, para além de ser reflexo do combate do nosso cérebro à mudança, seja também resultado da comparação com pessoas que fazem o que queremos começar a fazer. E ao virmos o nível da qualidade do que fazem nos sentimos diminuídos na nossa capacidade de termos o mesmo resultado.

As comparações até determinado nível são benéficas pois permitem-nos olhar para o lado e ver o que os outros fazem e podem criar em nós a ambição de crescermos. Contudo, podem ter efeitos adversos pois nos podem paralisar quando esquecemos que é preciso relativizar as coisas. Não devemos comparar o que não é igual. Não devemos comparar o resultado ou qualidade do trabalho de alguém que faz algo há 5 anos de alguém que começa hoje. Devemos olhar para como essa pessoa começou, entender que o que ela faz hoje com tanto qualidade é o resultado do tempo decorrido, do investimento realizado e da dedicação colocada na própria atividade.

Precisamos interiorizar que o caminho faz-se caminhando, que parado nada acontece, que é necessário dar um passo de cada vez, de irmos nos aprimorando, nos dedicando e que a excelência vem dessa dedicação. Que o estar pronto é resultado do trabalho, de fazer e de continuar a fazer. Uma e outra vez.

Também podemos ser esmagados pelo peso da enormidade de tudo o que achamos que precisa ser feito. E esquecemos que não conseguimos e nem é possível dar dez passos ao mesmo tempo. O caminho é feito de um passo atrás do outro, com mais ou menos segurança, com mais ou menos vigor, mas somente um passo de cada vez.

E ter um plano delineado facilita este processo, porque conseguimos a cada momento saber o que é preciso fazer e focamos somente no passo seguinte. Conforme vamos caminhando as nossas pernas ficam mais fortes e resistentes, o que nos irá permitir percorrer em menos tempo distâncias que antes nos tomavam mais tempo. Umas pernas e um cérebro mais fortes e ágeis permitem-nos ver se há necessidade de percorrermos outro caminho que nos levará mais rapidamente ao objetivo. E também permitem a todo o tempo ajustar a rota se for caso disso.

Atualmente temos a vantagem de termos o mundo na palma da nossa mão, de termos a possibilidade de aprender com as pessoas (de todo o mundo) que já fazem o mesmo que queremos fazer e muitas vezes esse acesso é gratuito.

Portanto que não nos deixemos paralisar pelo medo de não estarmos prontos para o novo que queremos, somente estaremos prontos quando nos dispomos a trabalhar e a dedicar aos nossos projetos e planos. O movimento, entenda-se a ação, consistente e consequente é a resposta, vamo-nos sim capacitando no caminho.

Não quero ser portadora de más notícias mas não posso deixar de alertar que esse pronto nunca é real, visto que os desafios durante o caminho vão continuar a surgir e somos obrigados a nos mantermos atualizados de forma a que possamos superá-los e continuar na luta.

Nesse sentido não se limite ao quanto pode voar com medo de estar pronto: nunca estará.

Praia, 17 de abril de 2024.

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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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