O Bafafá dos Festivais

O anúncio do valor pago ao cantor brasileiro Leo Santana para atuar na edição de 2026 do Festival da Baía das Gatas acendeu chamas: será legítimo investir esse tanto de dinheiro público em festivais quando o país enfrenta desafios estruturais em áreas como a saúde, a educação, a habitação ou emprego?

É uma discussão importante. E, na minha opinião, o valor em causa pode e deve ser questionado. Confesso que eu também achei o número… musculado. O problema começa quando se misturam pautas e se transforma uma crítica à gestão dos recursos públicos numa cruzada contra a existência dos festivais.

Nas redes sociais, assistimos a uma espécie de moralismo punitivo – em certos discursos, a crítica ao uso do dinheiro público rapidamente abandona o terreno da política e entra no da moral: já não se discute apenas quanto custa um festival, quem decidiu o seu orçamento ou quais foram os critérios de contratação; começa-se a julgar a própria legitimidade de uma população celebrar. Como se a privação material devesse produzir também uma privação simbólica; como se, perante a precariedade, o comportamento moralmente adequado fosse a contenção, a resignação e, no limite, a penitência.

Digo assim porque em algumas das reações mais inflamadas, chega-se mesmo a convocar uma linguagem religiosa de castigo: profetiza-se a ira divina sobre o povo, anunciam-se consequências quase apocalípticas. Há aqui uma curiosa deslocação da responsabilidade, bem típica do exército dos representantes facebokianos do senhor: a ira não recai sobre quem supostamente opera de forma “esbanjante”, sobre quem administra os recursos ou sobre quem decide os contratos. Recai sobre o povo! Acho isto bem engraçado mesmo.

Nao preciso nem dizer como há uma perversidade nesta operação, porque pressupõe que quem vive em condições materiais precárias deve também demonstrar uma espécie de temor espiritual. Afinal de contas, será que uma pessoa perde o direito ao ócio porque o país atravessa crises? O direito ao descanso torna-se ilegítimo quando existem problemas na saúde? A música passa a ser supérflua quando há dificuldades na educação? E quem determina o momento exacto em que uma sociedade já resolveu problemas suficientes para voltar a ter autorização para se divertir?

Nesse contexto, o prazer colectivo tem uma função que não é meramente recreativa. Mas seria intelectualmente pobre exigir que uma experiência cultural tivesse de resolver aquilo que uma política económica não conseguiu resolver para que pudesse ser considerada legítima. O problema talvez esteja precisamente na forma como concebemos o lazer: aceitamos facilmente que ele seja mercadoria, mas temos dificuldade em reconhecê-lo como direito. Pagamos para viajar, para assistir a concertos, para frequentar ginásios, para comer fora, para consumir plataformas de streaming e para passar férias. A economia contemporânea é, em larga medida, uma economia do desejo e da distração. O capitalismo não combate o nosso desejo de evasão; pelo contrário, aprendeu a monetizá-lo extraordinariamente bem.

Seria, portanto, estranho reservar a indignação moral precisamente para o momento em que essa evasão assume uma forma colectiva e pública.

O festival é, nesse sentido, uma contradição interessante. É simultaneamente produto cultural, mercadoria, espectáculo, espaço de sociabilidade e mecanismo económico. Pode ser indústria cultural e, ao mesmo tempo, produzir memória colectiva. Pode anestesiar e reunir. Pode reproduzir a lógica do consumo e criar experiências que ultrapassam o consumo. Talvez seja essa ambivalência que devamos aceitar, em vez de procurar uma pureza que a cultura de massas nunca teve.

E é precisamente por isso que também é perigoso demonizar os festivais. Um festival não é apenas o artista que aparece no cartaz e o valor que aparece na notícia. Existe toda uma economia invisível por trás das poucas horas de espectáculo. O palco é apenas a parte mais visível de uma cadeia profissional muito maior. Há técnicos de som e luz, produtores, designers, fotógrafos, videógrafos, seguranças, motoristas, vendedores ambulantes, cozinheiros, hoteleiros, taxistas, empresas de transporte, equipas de limpeza, jornalistas, profissionais de comunicação, empresas de montagem, fornecedores e inúmeros trabalhadores cuja actividade se intensifica em função desses eventos.

Em economias pequenas, esta dimensão não é insignificante. Um festival redistribui rendimento entre sectores que, muitas vezes, não aparecem quando se fala de política cultural. O dinheiro gasto pelo público no transporte, na alimentação, no alojamento, nos bares, nas lojas e nos serviços não fica circunscrito ao recinto. Há um efeito de circulação económica que precisa de ser contabilizado quando se avalia o custo real e o retorno de um evento. Alguém me disse que uma senhora que vendeu fresquinhas, ganhou por dia mais de 100 mil escudos!!!!

Isso não significa, evidentemente, que todo festival seja economicamente virtuoso ou que qualquer investimento cultural esteja automaticamente justificado. Seria tão absurdo defender isso como afirmar que toda obra pública é boa simplesmente porque cria empregos.

É precisamente por existirem recursos limitados que a discussão deve ser mais séria. Quanto custa? Quem recebe? Quanto desse dinheiro permanece na economia local? Quantos profissionais são mobilizados? Que empresas são contratadas? Que receitas fiscais são geradas? Qual é o retorno turístico? Que oportunidades cria para artistas e profissionais nacionais? Que parte do investimento é pública e que parte é privada? Que critérios determinam a contratação de um artista internacional em vez de outro?

Estas são perguntas legítimas. O que não me parece legítimo é saltar dessas perguntas para uma conclusão muito mais confortável: se existem problemas sociais, então os festivais são o problema. Essa conclusão tem uma vantagem: dispensa-nos de discutir a complexidade da gestão pública.É sempre mais fácil crucificar a festa do que discutir a estrutura que produz a pobreza.

E talvez seja por isso que, de tempos a tempos, assistimos a este curioso fenómeno: quando a sociedade está insatisfeita, a cultura popular torna-se o objecto perfeito da indignação. É suficientemente pública para ser vista, suficientemente prazerosa para parecer supérflua e suficientemente popular para ser moralmente julgada.

A cultura de massas tem, desde sempre, essa posição desconfortável. Quando é consumida, é tratada como entretenimento; quando custa dinheiro, é tratada como desperdício; quando mobiliza multidões, é tratada como manipulação; e quando se torna politicamente relevante, passa subitamente a ser tratada como ameaça.

Não precisamos de escolher entre o direito de uma população a viver melhor e o direito de uma população a celebrar. Precisamos de exigir um Estado capaz de financiar ambas as coisas, de estabelecer prioridades com transparência e de avaliar os seus investimentos sem transformar a cultura no bode expiatório das suas próprias insuficiências.

A solução não passa por acabar com os festivais. Passa por melhorar a gestão dos recursos públicos e, sobretudo, elevar a qualidade de vida da população. Um país pode — e deve — ser capaz de investir em saúde, educação e habitação, sem abandonar a cultura e os espaços de encontro coletivo.

Sempre que surge uma polémica deste género, parece haver uma vontade quase automática de crucificar a cultura de massas, como se ela fosse um luxo dispensável. Mas uma sociedade não vive apenas de necessidades básicas. O verdadeiro debate nunca deveria ser “festivais ou qualidade de vida”. A pergunta certa é: como construir um país que consiga garantir ambas?

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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