O “Bug” no Sistema: Como os Pequenos Poderes Travam o Nosso Progresso

Como engenheiro informático, confesso que a minha lente de observação do mundo não é a da sociologia ou da psicologia, mas sim a dos sistemas, dos fluxos de dados e da otimização. Quando um sistema informático falha ou fica lento, procuramos o "bug", aquele erro de lógica que cria bloqueios e impede o bom funcionamento do todo. Ao observar a realidade da sociedade cabo-verdiana, seja no território nacional ou na nossa vasta diáspora, tenho vindo a identificar um "bug" comportamental crónico que compromete seriamente o nosso desenvolvimento: a forma como gerimos o poder, seja ele pequeno ou grande.

É um erro comum pensar que o abuso de autoridade é um exclusivo de quem ocupa lugares de topo. Na verdade, qualquer pessoa que detenha o controle sobre uma etapa de um processo ou uma simples informação pode transformar-se num bloqueio. Pensemos no funcionário de uma repartição pública, no segurança à porta de uma instituição, na pessoa responsável pela triagem de documentos ou mesmo no vizinho que gere um espaço comum. Quando a pequena autoridade ou a burocracia são utilizadas não para organizar, mas para fazer o outro sentir que depende daquela boa vontade, o sistema falha. 

A psicologia explica isso de forma clara. Estudos do investigador David Kipnis sobre o efeito metamórfico do poder demonstram que indivíduos inseguros ou sem preparação, ao receberem uma fração de autoridade, tendem a desvalorizar os seus pares para se sentirem superiores. O poder não corrompe, apenas revela a necessidade de afirmação de quem usa a rigidez cega para inflar o próprio ego.

Este padrão repete-se diariamente no setor privado, onde o pequeno poder se manifesta, por exemplo, no colega que se recusa a partilhar conhecimento técnico para se sentir “indispensável”, ou na chefia intermédia que lidera pela microgestão e pelo medo. Em vez de atuarem como facilitadores da rede humana, estas pessoas agem como autênticas firewalls mal configuradas. A investigadora de Harvard, Amy Edmondson, avisa que estas atitudes destroem a “segurança psicológica” das equipas. Sem essa segurança, a criatividade é sufocada, os processos arrastam-se e o ambiente de trabalho torna-se tóxico, boicotando o avanço de todos apenas para que alguém não perca o seu pequeno protagonismo.

Mas o poder nem sempre requer um crachá ou uma secretária; a informação, por si só, é poder e pode ser usada como arma na nossa sociedade. É doloroso observar, tanto nas ilhas como, de forma muito visível, nas comunidades da diáspora, pessoas que omitem propositadamente dicas vitais sobre emprego, habitação ou documentação àqueles que estão a tentar organizar a vida ou aos recém-chegados. Em vez de funcionarem como uma rede de suporte, usam a vantagem temporal ou o acesso à informação como um falso estatuto de superioridade, mantendo o outro na vulnerabilidade. Na sociologia, isto é frequentemente descrito como a “mentalidade de caranguejo num balde”: a triste tendência de puxar para baixo quem tenta subir. Esta atitude tóxica nasce muitas vezes da crença de que, se a pessoa sofreu, foi humilhada e passou por imensas dificuldades para se estabelecer e alcançar algo, o outro tem de sofrer e passar exatamente pelas mesmas barreiras para “merecer” o sucesso.

Contudo, seria cego e injusto focar a análise apenas nos pequenos poderes sem olhar para o topo da pirâmide. Os “grandes poderes”, como governantes, altos dirigentes e administradores, têm uma responsabilidade fundadora neste ciclo. Quando as lideranças máximas de um país ou de uma organização gerem a coisa pública com arrogância, lentidão, falta de transparência e distanciamento da realidade, estão a legitimar o comportamento das bases. Se o topo do sistema operativo está corrompido por interesses pessoais e vaidades, as aplicações que correm por baixo assumem que essa é a norma aceitável. A ineficiência institucional que tanto nos prejudica, que afasta investidores e faz tantos jovens talentos procurarem oportunidades lá fora, é muitas vezes o resultado desta cascata de egos.

Para corrigirmos este erro de sistema, precisamos de uma atualização cultural profunda e urgente, transversal a todas as camadas da nossa sociedade. O foco tem de transitar de uma cultura de posição, onde o cargo, o tempo de imigração ou o título político servem para oprimir, para uma cultura de serviço, onde o conhecimento e a função servem efetivamente para facilitar e construir. Num país de recursos limitados como Cabo Verde, a colaboração e a partilha de informação não são apenas virtudes morais elegantes, são imperativos absolutos de sobrevivência e de progresso. O nosso maior recurso somos e sempre seremos nós mesmos, e já passou da hora de otimizarmos este sistema para que todos possamos avançar.

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Edson da Veiga

Edson da Veiga

Licenciado em Engenharia de Telecomunicações e Informática e mestrando em Engenharia Informática e de Computadores, especialidade em Cibersegurança e Blockchain/Web3. Paralelamente, com um histórico de liderança associativa, tendo presidido a União dos Estudantes Cabo-Verdianos de Lisboa (UECL) e sendo o fundador do Kriol Think.

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