O cinema no meu país 

O cinema no meu país 

Desde muito cedo aprendi a gostar do cinema, na minha infância e adolescência não consegui descortinar a estratégia que os EUA usaram para divulgar o sonho americano e passar a ideia de terra prometida.

Hoje e depois de ter adquirido um conhecimento mais aprofundado, sobre essa área, sei que os EUA usaram Hollywood como ferramenta de soft power; que o Brasil usou as telenovelas para exportar uma certa imagem, muitas vezes enviesada da realidade desse país que é forte na criatividade, mas ao mesmo tempo excludente na forma como a sua sociedade está estratificada e as novelas são um exemplo vivo disso, basta ver que até hoje não existe um galã negro das novelas contrariamente ao que acontece nos filmes e séries norte-americanos. Mesmo com todas essas realidades os EUA, outros pontos fortes a parte, tornaram-se o que são hoje, porque financiaram e continuam a financiar a sua imaginação. Brasil continua a influenciar culturas menos atentas e a sua realidade social através das telenovelas.

Cabo Verde, sendo o que somos, não precisa de imitar a escala desses dois gigantes do cinema e do audiovisual, mas precisa de uma estratégia inteligente, autêntica e focada em nichos. Temos a nossa música, uma estabilidade governativa, e uma história com vários capítulos ainda por contar, mas falta a tradução disso tudo em imagens.

A meu ver, como cinéfilo e um apaixonado por essa área me parece que a estratégia para o nosso país não deve ser semelhante a de Hollywood ou Globo, mas poderíamos posicionar como um “Estúdio do Atlântico” — um lugar onde as histórias de resiliência, crioulidade e futuro sustentável são contadas com a vivacidade e autenticidade que nos caracterizam.

A Associação do Cinema e do Audiovisual devidamente enquadrada e financiada pode passar a ter um papel mais decisivo e deixar de ser apenas uma entidade reivindicativa, passar mesmo a ser o agente mais importante deste mercado ainda por explorar.

A associação podia a meu ver mapear talentos, vendendo o país como locação e mostrando se assim posso dizer o governo e as instituições privadas a verem o cinema e o audiovisual não como algumas áreas da cultura, que apenas trazem despesas, mas como estratégia de desenvolvimento económico e diplomacia ou seja como uma verdadeira área para se fazer investimentos.

Mesmo sabendo que já estive na área cultural, enquanto diretor geral, e tenho a noção que fizemos muito, mas certamente não foi o suficiente e é preciso continuar a fazer cada vez mais..Neste capítulo fica algumas propostas que me parece fazer algum sentido nos próximos tempos:

Estabelecer sem receios nenhuns a “Marca Cabo Verde” no Cinema e o Audiovisual ( O Soft Power Cabo-verdiano)

Não é menos verdade que antes de comecarmos a financiar filmes ao desbarato, precisamos definir o que Cabo Verde realmente quer “vender” ao mundo nos próximos anos.

Não devemos cair na tentação de imitar o “sonho americano” ou a ostentação, mas sim vender o que podemos chamar de o “Milagre Cabo-verdiano”: um país pequeno, com parcos recursos naturais, de clima seco e árido, que foi colónia de Portugal durante muito tempo, mas que mesmo perante todas as adversidades passadas e as que continuam presentes se transformou numa nação de cultura vibrante, com uma música (morna, funaná, coladeira…) hoje universal, com uma democracia estável e Diáspora resiliente e que certamente tem também as suas histórias de adversidades e superação para nos contar. O nosso diferencial poderá passar por mostrar a beleza árida e vulcânica das ilhas, a nossa morabeza, entretanto sem cair no exotismo barato, ou seja devemos mostrar sim Cabo Verde como um país moderno e criativo, não apenas como um “paraíso de sol e praia”.

Criação de Estruturas Mínimas (Mesmo sem grandes orçamentos)

Por exemplo criar as Film Commission, não será preciso esperar por um decreto governamental, que é essencial, mas que pecará pela sua demora institucional. Por exemplo, se essa estrutura ainda não existe a Associação de Cinema pode criar um “Balcão de Apoio à Produção”. O papel desse balcão poderia passar por mapear locações, facilitar autorizações alfandegárias para equipamentos e servir de intermediário entre produtores estrangeiros e os departamentos governamentais com poderes para decidir nessa área. Quem labuta diaramente nessa área sabe que arair uma produção internacional (mesmo que pequena) gera empregos locais e know-how que fica no país.
Fundos –

Possibilidade de existir fundos alternativos: No meu tempo como Diretor existia o NUNAC, mas o capital nacional é muito escassso, por isso deve existir uma estratégia, que a meu ver poderá focar em coproduções internacionais.

Contar as nossas histórias

Cabo Verde tem um passado fantástico e ainda muito pouco explorado.

Por exemplo, até o momento não existe um grande filme de ficção de alta qualidade sobre Amilcar Cabral, que é um ícone da luta anticolonial mundial. Um filme bem concebido com potencial para entrar em festivais como Cannes ou Sundance.

A Fome e a Diáspora: A história trágica e poética da emigração forçada para São Tomé, para as roças e para os EUA (os baleeiros de New Bedford).
Cesária Évora: O filme sobre a “Diva dos Pés Descalços” é verdade que já foi feito um excelente documentário, mas a história do contexto cultural que a criou ainda pode ser explorada, me parece que ainda existe outros capítulos da vida de Cesária Évora por contar.

A nossa histórica classificação para o Mundial de Futebol de 2026 é uma janela de oportunidade única que não se repetirá tão cedo e que ainda não foi contada da melhor forma.

Por último e para não esticar muito existe a Capacitação e Infraestrutura Técnica

Não existe ainda, mas devia existir Escolas de Verão, onde anualmente poderiam acontecer residências intensivas de roteiro e produção com formadores provenientes de países como Nigéria (Nollywood), África do Sul, que são mestres em fazer cinema de baixo orçamento e alta rentabilidade, Itália, Turquia, Brasil, Espanha, etc.

A possibilidade de existir Equipamentos Comunitários, essa responsabilidade poderia ficar a cargo da Associação de Cinema e Audiovisual ter um lote mínimo de equipamento (câmeras, luzes, som) que possam ser alugados a preços simbólicos para jovens cineastas, com provas dadas no mercado nacional.

Como é óbvio existem outros pontos também fulcrais para um desenvolvimento mais consistente, mas fico por aqui pela razões óbvias, entretanto volto a dizer que o cinema e o audiovisual são setores que merecem uma aposta ainda mais detalhada nos próximos tempos.

Adilson Gomes

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Adilson Gomes

Adilson Gomes

Adilson Gomes é um gestor / produtor cultural com intervenção direta na definição de políticas públicas para a cultura e as indústrias criativas em Cabo Verde. Foi Diretor Geral das Artes e das Indústrias Criativas (2017–2023), período em que contribuiu para a gestão e dinamização de alguns dos principais equipamentos culturais do país como eixo estratégico de desenvolvimento. Coordenou o Núcleo Nacional do Cinema, onde esteve ligado à estruturação do setor audiovisual e à criação de mecanismos de apoio à produção. Ao longo do seu percurso, tem defendido a profissionalização dos trabalhadores da cultura e o fortalecimento da economia criativa. Integrou o Conselho de Administração da Pró-Empresa e atualmente faz parte do Ministério da Promoção de Investimentos e Fomento Empresarial.

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