O difícil compromisso de continuar, mesmo sem resultados imediatos

Num mundo onde o imediatismo muitas vezes domina, o desafio de persistir e resistir à tentação de percorrer, quase que exclusivamente, o caminho da gratificação imediata (G.I), é um tema que merece a nossa atenção.

A necessidade de gratificação imediata tem raízes profundas na psicologia e alguns estudos sugerem uma relação direta com o nosso passado evolutivo, onde a busca por recursos imediatos era vital para a sobrevivência. No entanto, num mundo onde as necessidades básicas são frequentemente atendidas, essa preferência pode manifestar-se de maneiras menos adaptativas.

A equação é tão simples como: sempre que somos recompensados imediatamente por uma ação, maior é a probabilidade de repetirmos esse comportamento no futuro. Essa aprendizagem associativa é uma das razões pelas quais a G.I pode ser tão poderosa e difícil de resistir, mesmo quando sabemos que a gratificação a longo prazo, e olhando para o todo, traria maior benefício.

Um bom exemplo disso são os jogos e as redes sociais que, estando bastante conscientes dos mecanismos de G.I, incorporam-nos na sua dinâmica para proporcionar uma sensação rápida de satisfação e recompensa aos utilizadores, incentivando-os a retornar regularmente e a permanecerem por períodos prolongados de tempo.

Para compreender melhor os mecanismos por trás da busca por G.I, é essencial analisar as suas bases. A G.I está associada à ativação do sistema de recompensa do cérebro, que envolve a libertação de neurotransmissores como a dopamina, associada à sensação de prazer e motivação.

E por que é que importa falar e refletir sobre isto? Porque a busca constante por gratificação imediata está frequentemente associada à baixa capacidade de persistir em alcançar metas de longo prazo. Quanto maior a dificuldade em adiar a gratificação, maior tende a ser o desafio em manter o foco e a motivação em objetivos que exigem esforço e gasto de energia contínuo ao longo do tempo. Isso ocorre porque a busca por G.I muitas vezes envolve evitar ou adiar atividades que exigem esforço ou sacrifício a curto prazo, minando a capacidade de persistir diante de obstáculos e de perseverar em prol de recompensas de longo prazo mais significativas.

Imaginando que a esta altura possas estar a perguntar-te “Como é que se dá a volta a isto?” eu diria que caminhos há muitos e que um deles pode passar por reduzir a necessidade de tomar decisões conscientes a cada momento, com a intenção de diminuir a influência da G.I nas nossas escolhas e comportamentos. Como exatamente…perguntas tu? Criando rotinas consistentes, definindo metas claras e estabelecendo recompensas associadas aos comportamentos desejados.

Por outro lado, a criação de ambientes que apoiem metas de longo prazo é crucial para sustentar a persistência ao longo do tempo. Isso pode incluir a modificação do ambiente físico para minimizar as distrações e tentações e, ainda mais importante, lançar um olhar atento às relações que cultivamos para validar se as nossas redes de apoio tendem a incentivar e a reforçar comportamentos orientados – ou não – para a direção que pretendemos caminhar.

Tudo isto para te dizer que a persistência é uma habilidade que pode ser cultivada e fortalecida ao longo do tempo. Ao entendermos os mecanismos por trás dos nossos comportamentos em busca de gratificação, podemos desenvolver estratégias mais eficazes para resistir à tentação do imediato em favor de recompensas mais duradouras e significativas, assegurando o equilíbrio entre os esforços presentes e as recompensas futuras.

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Carla Palavra

Carla Palavra

Psicóloga, Comunicadora, Empreendedora & Defensora que o Walk venha antes do Talk.

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