O que o Barão de Münchhausen nos pode ensinar sobre a Saúde Mental & Autossuficiência?

"As Aventuras do Barão de Münchhausen” é uma obra clássica alemã que traz relatos fantásticos das supostas façanhas de um aventureiro e extravagante barão do século XVIII que ultrapassa, com braveza, os desafios que se lhe colocam. Capaz de proezas absurdas, viagens impossíveis e encontros surreais, o aventureiro Barão seria, em bom kriolo, um belo d’um “Djô Basof”.

Numa das suas passagens mais emblemáticas, o Barão conta de um episódio em que sai para dar um passeio a cavalo e acaba imerso num pântano, afundando-se cada vez mais, sem que alguém o pudesse socorrer. Ele conta que, nesse momento, não hesitou em puxar-se a si mesmo pelos cabelos, até conseguir retirar-se a si e, pasme-se, ao cavalo, para fora do pântano. Algo para lá do humanamente possível.

Embora não se trate de uma obra explicitamente relacionada à psicologia, este livro caiu-me em mãos por sugestão de umas das minhas orientadoras de curso e essa leitura serviu de plataforma para uma série de discussões sobre sofrimento psíquico, os tantos estigmas existentes e, acima de tudo, a ideia de autossuficiência

Isso porque, a natureza absurda das aventuras do Barão pode ser entendida apenas como um conjunto de estórias mirabolantes, mas, também pode ser entendida como uma representação simbólica do mundo psíquico e das batalhas internas que em alguns momentos enfrentamos.

O Barão, com sua imagem de extrema autossuficiência diante de desafios surreais, pode representar as façanhas que as pessoas realizam nas suas vidas, muitas vezes enfrentando, silenciosamente, dificuldades psíquicas, mas relutantes em pedir ajuda. 

E é aí que a porca torce o rabo: pedir ajuda. Essa é uma daquelas habilidades para serem ensinadas desde muito cedo e, por ensinadas eu quero dizer pela observação, pelo exemplo, pela interação, pela abertura para acolher as vulnerabilidades dos outros e as nossas, em lugar de continuar a estigmatizar e a reforçar expectativas irreais sobre a autossuficiência.

E, sim, eu entendo que a forma como ainda lidamos com questões ligadas à saúde mental seja resultado direto do medo do desconhecido e dos pactos sociais, culturais e, porque não, políticos, que foram estabelecidos e perpetuados por largos anos.

Por outro lado, a conscientização, a educação e a promoção de narrativas mais precisas são ferramentas poderosas, não só para desarmar esse medo do desconhecido, mas, também para nos permitir ir alargando esse nosso repertório que, pela sua estreiteza, tantas vezes nos impossibilita de estarmos mais preparados e capazes de identificar os recursos adequados, prevenir e intervir de forma mais precoce quando o assunto é saúde mental.

Quanto à autossuficiência – ou à ilusão dela – que possamos, inspirados pelo Barão, em momentos de grandes batalhas internas, despir essa pesada capa e lembrarmo-nos, gentilmente, que isso de se retirar do pântano puxando-se pelos próprios cabelos, além de ser coisa para o mundo irreal, coloca-nos em grande esforço mental e emocional e pode, em momentos críticos, esvaziar em nós importantes recursos internos como a clareza, a vitalidade e a auto-compaixão.

 

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Carla Palavra

Carla Palavra

Psicóloga, Comunicadora, Empreendedora & Defensora que o Walk venha antes do Talk.

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