O racismo é um problema de todos, e de cada um de nós

Por mais que deseje que assim fosse, o racismo não nasceu nem vai morrer com o caso George Floyd. Este é tão-somente o mais recente (e, provavelmente, um dos mais revoltantes) episódios de uma saga, cujo tempo de antena já não se justifica, cuja realidade deveria ter perdido há muito o seu lugar na história da humanidade, cuja batalha escusava o mundo de estar a enfrentar neste momento de tamanha vulnerabilidade, incerteza e incapacidade.

Na qualidade de membro da tribo mais fustigada por este cancro social (sem cura à vista, há que assumir), assumo que o racismo está tão enraizado nas sociedades – em umas mais do que em outras, é certo – que são precisos episódios como este de Minneapolis para que nos lembremos de que estamos longe de vencer esta guerra; se é que isso algum dia acontecerá.



Racista não é só aquele que chama “preto” ao africano, não é só aquele que diz “vai para a tua terra”, não é só aquele que diz que prefere morrer a ter um neto “de cor”, muito menos aquele que se refere aos negros como “macacos”. Racista é, na sua essência, aquele que acha que não é, pois ao achar que não é, não vê motivos para mudar a sua perceção, erradicando assim da sua crença a convicção de que o valor das pessoas varia consoante a cor da pele ou os traços fisionómicos. Racista é aquele que, no alto da sua prepotência, apregoa que o racismo não existe.


O racismo existe sim! Trata-se de uma realidade transversal a todos os países, com Portugal a não ser uma exceção. Por tê-lo sentido na pele, estou ciente do quão utópico é acreditar que em Portugal episódios do género não acontecem. Talvez não aconteçam com a mesma regularidade, vulgaridade e gravidade como nos Estados Unidos, mas convém não esquecermos os casos do cabo-verdiano Alcindo Monteiro ou do ator Bruno Candé, só para citar os mais mediáticos. A esses deu-se destaque na opinião pública. E aos outros, àqueles que acontecem todos os dias e dos quais, muitas vezes, nem as próprias vítimas se apercebem?



Estes três casos, publicados, em março de 2019, numa revista feminina portuguesa, ilustram – e de que maneira – aquilo que acabei de referir:

Amélia candidatou-se a um emprego numa instituição bancária. Como não pôs a fotografia no currículo, acabou por ser contratada, depois de passar por um processo de seleção. Percebeu na entrevista final que o chefe tinha ficado de pé atrás, e um dia tomou coragem e perguntou-lhe diretamente se tinha a ver com o facto de ser negra. Frontal, ele assumiu que sim, justificando que o banco tinha como política não contratar nem negros nem brasileiros, e que se ele tivesse visto a sua fotografia antes, ela não seria selecionada.



Mamadou tentou durante meses arrendar uma casa no centro de Lisboa. Nunca conseguiu. Por ter sotaque, à custa da sua origem senegalesa, ao entrar em contacto com o proprietário, levou sempre com a promessa de que receberia mais informações por SMS. Ao tuga de gema, com sotaque lisboeta, que ligava imediatamente a seguir, davam logo a morada, por telefone ou por SMS.



William, estudante de arquitetura em Londres e de férias em Lisboa, deixou a mãe à porta de casa para ir estacionar o carro. Sem nada fazer, foi mandado parar por dois polícias e levado para a esquadra. O argumento para tal? Uma carta de condução que os agentes insistiam que não era. Ele não teve dúvidas sobre a única razão de ter sido considerado suspeito: era castanhinho.



Estes são apenas alguns, de entre incontáveis, histórias do Portugal de hoje. Pequenas amostras de um fenómeno muito mais colossal e transversal do que a maioria quer revelar ou reconhecer. A ponta de um icebergue, cuja dimensão e profundidade poucos de nós se sentem preparados para encarar, aceitar, lidar e lutar.



Termino reforçando que black lives matter sim, tal como todas as outras, e que só existe uma raça: a humana!

 

Artigo originalmente publicado no blog https://aindasolteira.blogs.sapo.pt/

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Sara Sarowsky

Sara Sarowsky

"Radicada em Lisboa, é blogger, cronista, inspiring talker, cupido profissional, organizadora de eventos e tudo o mais que a desafiar. Por gostar de ser/estar feliz, a sua escrita é recheada de humor e positividade, com uma pitada de sarcasmo pelo meio".

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