O Sonho de Morabeza

Um texto de literatura poética do cronista Mário Cardoso alusivo ao 5 de julho.

Flagelados filhos (in) dependentes,
Bastardos de um mercantilismo humano de raças.

Revoltados sob a égide cristã,
Transformando fulos e wolofs em Joaquins e Joões, em nome do Senhor.

Condes grenobleses, genoveses e minhotos exilados,
Apaixonados pelo nosso torrão, pariram mulatos herdeiros de São João e Santo Antônio. António Da Noli que o diga!

Agraciados pela secura do deserto, contra mar e vento,
Perpetuámos a nossa resiliência, e cansados do pão que o diabo amassou, o machado e a faca quebraram a inocência de um povo malnutrido.

Nos livros do paternalismo do Estado Novo,
Aprendemos a nossa injustiça e nossa identidade apagada dos manuais de história.

No mato do continente, reencontramos a nossa gênese,
Esculpindo um herói da negritude, que no vapor da libertação traiçoeira, desvendou o terror do maquiavelismo imperialista.

No heroísmo libertário, desbravaram-se caminhos e produziram-se novas nações.
Ganhamos a liberdade! Levanta o braço, grita tua liberdade!

Estado liberado, dois povos, uma nação!
Nação artificial?! Perguntem ao Nino Vieira.

O caminho que já era unicidade, venceu,
E ganhamos um novo Estado. Partido-Estado, Estado-Partido. A derradeira hegemonia crioula.

Reformando as reformas do novo Estado,
Revoluções trotskistas dispararam uma nova revolução. A democracia bateu-nos à porta e, entre quedas de muros no globo, quebramos a nossa muralha.

Na renovação democrática, vincámos um Estado de Direito,
Com direitos e deveres iguais para todos, onde os resquícios das heranças hegemônicas de privilégios retardam ainda o progresso.

Alternância do poder, novos movimentos e atores,
A ditarem o rumo ao novo mundo. Lá corremos nós na labuta do dia-a-dia, vendo a benção de um país de rendimento médio. Alguns com mais, alguns com mãos cheias de nada.

A nossa melodia abriu o nosso “Porton di nos ilha”
E entoou os sonetos das guitarras, dos tambores e da gaita, acavalando a morabeza pelos cantos do planeta azul.

Caminhámos de pés descalços e elevamos o patrimônio
Do centro de uma era transatlântica ao nível da humanidade. Os nossos tubarões morderam o topo do mundo, e a nossa graça fez de 10 grãozinhos de areia, um petit grand pays (para inglês ver, dizem alguns).

A chuva trouxe-nos esperança, mas também desilusões.
Tentámos voar o mundo a partir de Cabo Verde, mas as nossas asas ainda não eram suficientes. Mas para um povo que nem a fome tombou, superar turbações é o nosso bom dia.

Hoje, a nossa negligência coletiva da gênese violenta de escravização ainda causa ecos sociais malignos.

A consagração de outras formas de mercantilismo droge vate financia o desenvolvimento de novas elites, e quem cala, consente.

Nem tudo foi rosamar, e nem tudo foi agreste.
Somos agridoce, mel e cana, milho e feijão, morna e coladeira, batuku e funaná, mazurka e finason, Nhô ku Nhâ, Jack i Djosinho, mar e terra, cravo e piorno, e tudo que os deuses fizeram nascer no meio do Atlântico. Tal feito é, que devemos continuar a sonhar por uma berdianidade de prosperidade e desenvolvimento equitativo, com dignidade social.

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Mário Cardoso

Mário Cardoso

Cabo-Verdiano, amante de uma boa cachupada e apaixonado pela cultura do mundo

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