Once Upon a Time ne Rbera Bote: nem tud bone t sirvi se dono

Normalmente trago aqui reflexões críticas e opiniões, mas nos últimos meses temos vivido um período triste da humanidade. Como se já não bastasse a pandemia, vivenciamos guerras, conflitos étnicos, apartheid, a crise habitacional que assola países da Europa e uma infestação de percevejos. Nestes momentos de cólera é necessário lembrarmos de sorrir. Eu acredito que o riso desempenha um papel importante para a nossa saúde mental. Por isso partilho convosco este pequeno texto.

A história que vos conto agora, parece tão surreal que se eu não tivesse presenciado estes acontecimentos não acreditaria se alguém ma contasse. Na Ribeira Bote há muito que se diz “Seberba katem bonc p senta”.

Bia era das pessoas mais conhecidas da Ribeira Bote. Todos os que passavam na Avenida 12 de Setembro de regresso a casa, depois de um dia de trabalho,
faziam uma paragem obrigatória na Ribeira Bote para recarregar as suas energias. Visitavam as mercearias, bares e botequins ou paravam para comer as moreias fritas da Bia.

Todos os dias, por volta das seis da tarde, lá estava ela com uma frigideira ao lume ao lado da paragem dos autocarros. As moreias tinham tanta fama que
havia mais pessoas naquela paragem a espera do pitéu envolto em farinha e cheio de óleo de fritar do que pessoas a espera do autocarro.

Mas ela não era apenas conhecida pelos seus dotes culinários, era também conhecida pelas suas bocas. Não tinha mãos a medir no que toca a mandar bocas. Uma típica mulher da Ribeira Bote. Só teme o julgamento final quem nunca sofreu o julgamento das fofoqueiras da Ribeira Bote. Não há pessoa, viva ou morta, que seja imune a apreciação das prigosas do bairro. Os seus rumores podem destruir a vida de qualquer um.

Certo dia, Bia não pós a sua frigideira ao lume. Os viajantes com fome não encontraram o seu oásis de moreias e nem ouviram as bocas do dia-a-dia a que se acostumaram. E a razão para o acontecido é óbvia. Só existe uma coisa no mundo que interfere entre uma pessoa da Ribeira Bote e o seu ganha-pão.

Quem for da Ribeira Bote já sabe do que se trata. Boné. Sim, confusão. Algo se passava e Bia não poderia ir trabalhar sem saber do que se tratava.

Meter-se na vida alheia é uma tradição tão forte na Ribeira Bote que chega a ser uma prática mais respeitada do que a missa de domingo. Sempre que acontece uma confusão o povo deixa tudo para trás e vai cuscar.

Quando a neta de Dona Joana chegou ao pé da Bia a contar que ia até a rua da padaria bisbilhotar pois a última novidade era que tinham apanhado um ladrão na casa cor-de-rosa, Bia não poderia deixar de cumprir a tradição. E como boa moradora do bairro da Ribeira Bote que é, deixou tudo por fazer, esquecendo-se da comida ao lume e do ferro ligado e foi tomar um boné.

Ao chegar na casa cor-de-rosa, os melhores lugares já haviam sido ocupados.

Uma multidão já se tinha formado em frente à casa. Estavam ali dois carros da polícia e uma ambulância que juntamente com a multidão tapavam-lhe a visão.

Mas Bia fez uso da sua estrutura física para empurrar uns quantos e posicionar-se à frente dos curiosos. Como todos sabemos o melhor lugar para assistir à este tipo de confusões é na frente da multidão de forma a colher melhor os pormenores.

Sem saber o que se passava Bia pediu informações ao jornalista de plantão mais perto. Manel o bêbado, atualizou-a ao mesmo tempo que lhe lançava com o bafo de grogue a cara deixando Bia meio tonta.

A trama era a seguinte: A casa cor-de-rosa pertence a dois imigrantes que só visitam Ribeira Bote no verão, deixando a casa fechada o resto do ano. Ao saber disso, um honesto trabalhador veio assaltar a casa. Mas o desgraçado não teve sorte pois ao tentar entrar pelo terraço acabou por cair no quintal partindo a perna. Não restaram alternativas ao ladrão senão gritar por socorro.

E lá os vizinhos chamaram a polícia e os bombeiros para o resgatar.

Esta era uma história que iria dar pano para mangas. Bia teria assunto para falar durante semanas com as fofoqueiras lá do bairro. E ela ao estar mesmo a
frente, captaria todos os detalhes e caber-lhe-ia a função de espalhar a boa nova para os que não tiveram a sorte de assistir a prisão do gatuno. Mas faltava a informação mais importante. Quem é o gatuno?

A polícia e os bombeiros estavam a demorar para o trazer cá para fora. A ansiedade era tão grande que Bia não parava de tremer. Os minutos pareciam horas. O povo começava a dispersar. Bia teria que fazer alguma coisa. Saiu de casa a correr para ser entretida e não voltaria a casa enquanto a história não fosse completamente apurada.

Foi aí que ela disse as famosas frases que a atormentariam para o resto da vida: “Quem é o ladrão? O povo tem direito de saber. Tragam-no aqui fora para
podermos ver a cara desse sem vergonha. De certeza que é um desses sem vergonhas aqui do bairro.”

O povo aplaudiu as suas palavras, repetindo-as em coro até que a polícia trouxesse o ladrão falhado para fora da casa. 

Bia ao olhar para a cara do ladrão ficou em estado de choque, o sangue gelou-lhe no corpo e caiu dura no chão. Desmaiou ao saber que ladrão era o seu filho.

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Nick Fortes

Nick Fortes

Investigador, produtor cultural, ator, encenador, dramaturgo e ativista. Doutorando em Comunicação, Cultura e Artes pela Universidade do Algarve, Mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa e Licenciado em Marketing pelo ISCEE.

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