Pedalar deixa as mulheres mais lindas

Pedalar deixa as mulheres mais lindas

Muitas pessoas me perguntam o porquê de acordar às cinco horas da madrugada, enfiar-me na roupa de ciclista, e sair a pedalar por esta cidade maravilhosa e perigosa. A resposta é mais complexa do que possam estar a imaginar, mas vou resumi-la assim: faço isso para ficar com essas pernas lindas e maravilhosas que meus pais me deram, e esse ar de menina que não quer crescer!

Mentira! A verdadeira razão desse meu hábito, aparentemente maluco, é que finalmente encontrei um desporto que me fascina. Me fascina, porque posso pratica-lo sozinha ou em grupo. O meu horário preferido é logo de madrugada, uma vez que ciclovias é uma realidade inexistente na cidade da Praia, e nesse horário quase não há carros a circularem.

Quando, a cada manhã saio de casa montada em cima da minha bike, com minha playlist num dos ouvidos, nada mais importa naquele momento: sou eu, a bike e a estrada. Os percursos são quase sempre os mesmos, mas aprendi a alterná-los, principalmente depois que fui assaltada, e me roubaram a minha bike Verdinha.

Mas, experiências menos agradáveis à parte, quero vos falar do bem que faz a prática do ciclismo, ou simplesmente pedalar sem rumo, mas com direção.

Ao contrário de muitos, eu não tive bicicleta em pequena, e é com um orgulho sem medida que digo: aprendi a pedalar aos 44 anos de idade, há exatamente 2 anos.
Impedida de praticar atividades físicas de impacto, devido ao estado dos meus ossos e articulações, minha médica recomendou andar de bicicleta. O remédio foi pegar a “Verdinha” da minha filha, e depois de dois dias tendo ela, a filhota, como treinadora, consegui “desasnar” ao ponto de começar a me aventurar para além da rua da minha casa. Quando me dei conta, mesmo com todas as quedas, joelhos ralados, pernas cheias de hematomas, o vírus do “pedalar” já se tinha instalado, e o remédio foi continuar.

Ganhei meu primeiro equipamento de ciclista, comprei capacete, luvas, luzes e bomba de pneus, e armada com a coragem meio inconsequente que me caracteriza, comecei a pedalar pelas ruas, avenidas e estradas desta minha Praia Maria, às 5 horas da manhã. Sozinha! Quando pedalo não penso em mais nada. É hora de mexer todos os músculos: os das pernas, pés, braços, costas, abdominais. É hora de lubrificar as dobradiças, mais conhecidas por articulações, e é hora de ganhar e perder fôlego.

As subidas são o calvário de todo ciclista, principalmente para aqueles que não sabem pedalar em pé (meu caso), mas, à medida que vais praticando, ganhando experiência e aprendendo os truques, o “calvário” vira um desafio interessante. E tem sido um desafio interessante pedalar com um grupo de ciclistas amigos, chamados de Galos da Madrugada. São um conjunto de senhores e jovens senhoras, uns com mais experiência e prática que outros, que munidos de um espírito de entreajuda, pedalam quase todos os dias de madrugada. São grandes incentivadores do ciclismo, principalmente do ciclismo no feminino.

Somos poucas, as meninas, que se aventuram a desafiar os perigos das nossas estradas, e da cidade (insegurança), para praticar este desporto que só traz benefícios para a saúde e para o bem-estar dos praticantes. A prática do ciclismo para além de deixar o corpo em boa forma física, a mente fica mais aliviada, pois permite conhecer lugares, cenários, e testemunhar os mais belos amanheceres e entardeceres que já vi.

Nestes dois anos de prática, perdi massa gorda, ganhei músculos e rejuvenesci uns dez anos. Apesar de conhecer na pele, os perigos de pedalar sozinha nesta cidade, nada me dá mais prazer do que estar em cima da bike, com os músculos das coxas a trabalharem no seu máximo, enquanto tento ultrapassar o meu limite, tendo somente o vento a abraçar-me o corpo, e o sol a beijar-me o rosto.

O ciclismo me deu mais vida, por isso, mulheres que me leem, vamos lá ganhar a coragem e começar a pedalar. O Mundo precisa de mais mulheres com pernas maravilhosas e com ares de menina que não quer crescer.

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Vera Figueiredo

Vera Figueiredo

"Patxê parloa que cresceu em São Vicente, e que fala o crioulo com sotaque de S. Antão. Relações Públicas de formação, ambientalista de coração, adora ler, e escrever é a forma que encontrou de enfrentar os demónios e os anjos que habitam em si. Deve à minha mãe o gosto pela escrita e o tom sarcástico. Escreve mais prosa do que poesia e é sempre sobre a realidade do outro entrelaçado com a sua, com doses q.b de ironia. Uma “contadora de estórias dos outros” e se não fosse Relações Públicas, seria Astronauta"

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