Por favor, tirem o peso da paternidade às mulheres

A minha mamã Juleta criou, sozinha, 8 filhos. Filhos e netos. Vendia no mercado do Platô e trazia-nos sempre bolos de mel, ao cambar do sol. Cabia a mim dividir os bolos, quando as moedas eram contadas a dedo. A mamã Juleta achava-me justa. Mas justa era ela; uma mulher que se separou cedo e criou, sozinha, 8 meninos. 8 barrigas para encher; 8 almas para preencher.

Durante a minha infância, os primeiros anos que constroem o ser humano, não tive nenhuma referência masculina. Nem pai, nem avôs. Sempre foi a minha mãe e a mamã Juleta. Mamã Juleta nunca aceitou ser chamada de avó. Não me façam perguntas.

Uma vida cansada, atribulada; sofrida. Por tantas vezes, conseguia escutar as vozes que se calavam à sua alma através dos seus olhos. A mamã Juleta era tão bonita e sempre muito pensativa.

Por favor, parem de dizer que mãe é pai. Tirem este peso das mulheres. Mesmo que a mulher se mate para criar os seus meninos, ela não é pai. Ga da Lomba canta-nos, mansamente, este “Mai e ka pai y pai e ka mai”. Nunca o serão.

Os filhos precisam da figura paterna no seu desenvolvimento como homem, como ser humano. Existe um espaço em mim nunca ocupado; apesar de ter tido a melhor mãe do mundo. Somos a junção dos cromossomas X e Y. É tudo da essência humana. Se crescemos sem pai? Sim, não morremos. Mas uma parte da nossa alma fica no silêncio. Sem voz, sem toques fortes. Sem valentia ou com valentia a quebrar o vazio. Basta fazermos uma análise interior profunda sobre quem somos nós, perceberemos muita sensibilidade ferida…

Hoje, mãe de dois, grita em mim a certeza de que me faltou a voz mais grossa, a bazofaria de criança… Sim! A minha filha dança lindamente nos braços do seu Papá. Em mim? Faltou-me o homem que me trouxe ao contato com este mundo quando a minha mãe sequer queria ser mãe. No dia em que for possível apenas a mulher fazer um ser humano, esta responsabilidade será apenas dela.

1 de junho precisa de mais filas com crianças a segurarem o dedo do pai.

Afinal, quem atira o filho ao vento?

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

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Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

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