Porquê eu converso tanto?

Uma crónica da Cleo Garcia Freire.
women talking to each other
Photo by PICHA Stock on Pexels.com

Conversadeira como era, Ana parava para conversar com todos quanto se deparava; não precisava fazerem parte os seus interlocutores do seu íntimo círculo de amizades. Embrenhava-se em longas conversas com a vendedora que, ciente de que a freguesa era ela, chamava de freguesa; durante todo o percurso da viagem, com o taxista; com os funcionários do supermercado do bairro e sabia o nome deles todos; com a pessoa sentada ao seu lado no autocarro e com todos os que como ela, gostavam de conversar. Porque é que nesse dia, haveria de ser diferente? Atrasada por causa dos compridos cumprimentos, Ana distribuía agora rapidamente as compras pelo armário e frigorífico. Logo ao sair de casa havia-se esbarrado com a Betinha – a sua freguesa de bananas e ovos da terra – que contava-lhe ter-se tornado avó; e juntas caminhavam enquanto Ana pedia-lhe para guardar os ovos da terra que tomaria na volta. Despedindo-se da Betinha, ouvia uma voz familiar a chamar por ela: “Amiga!”; Ana parava então mais uma vez, cumprimentava a idosa chamada por todos de Vovó com quem há muito não havia se encontrado pelas redondezas. Retomaram a marcha ao mesmo tempo que começava a Vovó a contar-lhe das melhoras havidas no seu estado de saúde, paravam de novo ao se aproximarem da Diminga. Esta contava-lhes dos sofrimentos causados pelas constantes dores na coluna, quando chegava a Fátima com a sua banheira de peixe à cabeça. E haveriam as quatro de se instalar à beira da estrada – ponto de venda da Fátima – como se não houvesse amanhã; onde concentradas, debatiam sobre uma diversidade de temas aleatórios da vida quotidiana. 

– Diminga, em quem vais votar nestas eleições autárquicas? – À dada altura, perguntava-lhe a Ana.

– Voto é secreto!

– E você, Fátima, em quem vai votar?

– Eu vou votar num deles! 

– E a senhora, Vovó?

– Eu não voto em ninguém! Tenho os meus filhos para zelarem por mim até quando eu morrer. Eu sou Amílcar Cabral!O homem que libertou a África e eu sou África! Sempre! Aliás, quando se deu o 25 de Abril, encontrava-me em Moçambique.

A sorrir do entusiasmado “homem que libertou a África” da Vovó, preparava-se para se despedir quando Diminga devolvia-lhe a pergunta: 

– E tu? Em quem vais votar? 

– O meu voto será em branco. 

– Votar em branco? Uma pessoa com escola como tu, votar em branco? – Incrédula, dizia-lhe a Fátima.

E, dito isso, de semblante grave volta-se para Diminga como se em busca de apoio e ainda abanava a cabeça em desaprovação quando dizia:

– Eu, sair da minha casa para ir votar em branco, prefiro não votar. Ami nta vota na un! Sikre mariado, nta vota!

Diminga abanava a cabeça em apoio às declarações de Fátima, Vovó ria-se com gosto e Ana, divertida, despedia-se finalmente das três. Fátima e Diminga repetiam “algen ku skola ta vota en branku” e, quando ia Ana a entrar no carro ouvia a Fátima que, ainda preocupada com tamanha irresponsabilidade, gritava-lhe ao longe:

– Bai bu vota na un!

Na volta, só depois de ter pago o frete enquanto rematava a conversa com o taxista em como a cada dia que passa tudo parece encarecer um pouco mais, dando uma rápida olhadela no relógio dava-se conta do quão atrasada ela estava. Ainda bem que os convidados para o almoço eram as suas primas e elas estavam acostumadas com ela. Havia preparado a sobremesa na véspera; caso contrário, estaria tudo absurdamente atrasado por causa dessa mania de transformar em longas conversas, o simples ato de cumprimentar; pensava ao terminar de organizar as compras. Porquê eu converso tanto? Precisava, de todo, começar a treinar conversar menos; não fosse esse péssimo hábito não teria de estar agora algo que ela muito detestava, a cozinhar às pressas. Mas como não conversar? E se o emprestar dos seus ouvidos, doar umas horas ou uns meros minutos do seu tempo, tiver salvado de alguma forma o dia ou quiçá, a vida inteira de alguém? Pensava Ana quando enfim, começava a preparar o almoço.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Cleo Garcia Freire

Cleo Garcia Freire

Sou uma amante da música e das letras e apaixonada pelos pequenos presentes da vida:
uma caneca de café quente; o cheiro do pão acabado de sair de forno; brisa do mar e
outras gotas de felicidade.

Outros artigos

Deixe um comentário

Follow Us