Praia será o local de nascimento da variante a oficializar

Uma questão recorrente que tenho ouvido é “Abo teni kantu tenpu na Praia y bo ka ta papia badiu?”. Isto porque já vou caminhando para quase uma década na cidade da Praia - como o tempo passa - e continuo a falar na minha variante do crioulo de Mindelo. Tenho defendido que uma pessoa na Praia (sim, não estou a confundir a cidade com a ilha) tem a obrigação de entender a minha variante, assim como eu tenho a obrigação de entender a sua.
Foto@Zé Pereira (all rights reserved)

Todos estamos a falar na língua cabo-verdiana, não há razão para enrolar a língua para se ser compreendido. Aliás, defendo mesmo que este tentar adaptar e falar numa outra variante traz mais malefícios para a variante actual do que benefícios. Isto porque o meu tentar falar nesta variante introduz elementos novos que não fazem parte do seu léxico ou então que são ditos de forma diferente.

Atenção, digo malefícios para a variante actual, não malefícios para a língua caboverdeana pois esta é dinâmica e vai-se enriquecer com esses novos aportes linguísticos. A variante actual da Praia irá descaracterizar-se quanto mais falantes de outras variantes procurarem mimetizar a fala para se comunicarem e isso tenderá a resultar na formação da variante que será então oficializada. Mas vamos por partes.

A língua caboverdeana é-me mais emocional enquanto a língua portuguesa é mais intencional e funcional

O meu relacionamento com a minha língua materna costuma provocar questionamento quando recebo perguntas sobre esta relação. Isto porque este relacionamento acontece numa base natural porque faz parte de mim. É como se perguntasses ao peixe se a água está fria e te respondesse “o que é água?”. Como escritor (e como pessoa) a língua materna significa uma das formas de absorver o Mundo, mas nem sempre é a forma de expressar este mesmo Mundo.

 

Isto porque a língua caboverdeana é-me mais emocional enquanto a língua portuguesa é mais intencional e funcional. As expressões de carinho quando o Mundo tomava forma perante a minha pessoa foram em crioulo de Cabo Verde. Mesmo a primeira música de ninar foi “ôh nenê, kem sotob; ê mamã, ê papá…” e a outra que cantaram para me proteger aos sete dias de vida, na minha festa de guarda-cabeça, foi “Ná oh minino ná, sonbra rum fugi di li…”

 

Com a língua portuguesa só mais tarde iniciaria a nossa relação, mas foi sempre uma relação em que estava constantemente a ser avaliado para conseguir alcançar os objetivos traçados pelo programa. E esta língua veio a ganhar a característica de funcional por ser um instrumento para dar forma a ideias usando conceitos com estruturas mais complexas.

 

Quando passei para a fase de escrever entendi que a língua portuguesa permitia-me alcançar um público mais vasto. E este público mais vasto estava, num primeiro momento, dentro de Cabo Verde. Isto porque o uso da língua caboverdeana é, na esmagadora maioria, de uso oral. Fiz uma escolha intencional. Eu penso, canto e sonho em crioulo, mas escrevo em português o que pode significar que futuramente será necessário um investimento no ensino do nosso crioulo para que se possa exprimir também na sua escrita padronizada.

 

Dois factores para definir o futuro da língua caboverdeana

 

Contudo, existem dois fatores que terão um peso forte na definição do futuro da língua caboverdeana: um informal e outro formal. No ensino formal será a entrada da língua caboverdeana, não como ensino bilingue, mas sim como disciplina. Porque o perigo da entrada do crioulo como ensino bilingue é que usamos o crioulo como bengala linguística para disfarçar a nossa incompetência linguística no domínio da língua portuguesa.

 

Quando os alunos procuram comunicar em crioulo no ambiente formal da sala de aula (muitas vezes) fazem-no, não porque poderiam expressar a ideia tanto em português como em crioulo, mas sim porque têm dificuldade em expressar em português.

 

Logo, o crioulo torna-se uma bengala linguística que tenderá a piorar a situação do domínio da língua portuguesa (e da língua caboverdeana em outras esferas que não a oral) tornando o bilinguismo em sala de aula pouco recomendável. Acredito que a entrada da língua caboverdeana no ensino formal terá que ser pela via de uma disciplina. Isto porque permitirá estudar a língua nos seus aspetos formais, definindo/conhecendo gramática, metodologias, material de suporte e grelhas de avaliação. Falar crioulo já todos falamos e o ensino bilingue nesta fase seria mais negativo do que positivo. Formar alunos com competências na língua caboverdeana resultará em produções criativas/académicas (conferindo-lhe uma maior autoridade simbólica e formal) e outras com maior abrangência e relevância do que apenas deixar-lhes falar em crioulo na sala.

 

Praia será o local de nascimento da variante a oficializar

 

O outro aspeto é o informal e este terá uma maior influência na definição da variante a ser adotada e o local onde nascerá este crioulo será na capital do país, Praia. Repara que digo que irá nascer este crioulo e não que se deve adotar o crioulo falado atualmente na Praia. Por ser o “melting pot” que é, da Praia irá emergir o crioulo após o processo de interdialectização da língua caboverdeana, como fala o linguista Manuel Veiga. Pelo que vejo, a língua caboverdeana que se fala na Praia tem a tendência de absorver e adotar elementos das variantes todas que aqui se encontram, para além do aspeto de descrioulização (ao se aportuguesar o crioulo nas falas de pessoas com maiores níveis de instrução) e a absorção do anglicismo (como por exemplo, worshops, sunset…) na comunicação oral mas também formal.

 

Passando a fase de interdialectização da língua caboverdeana estaríamos na fase de supracriolização, impondo-se a variante que nascer da absorção das variantes na Praia.

 

Neste caso não se estaria a falar da variante da ilha de Santiago mas sim da variante da cidade capital, Praia. A variante de Santiago seria absorvida dentro da variante da Praia, sendo que as variantes das ilhas do Fogo e Maio (Sotavento) também seguiriam o mesmo processo. As variantes das ilhas do Sal e Boa Vista (Barlavento) dariam lugar à variante recém-nascida na Praia por causa da perda da população originária destas ilhas e o consequente aumento da população oriunda de outras paragens.

Este processo de interdialectização da língua caboverdeana e depois supracriolização tenderá a acontecer, em menor escala, na cidade do Mindelo, na ilha de São Vicente (Barlavento). Nesta cidade este aspeto de descrioulização parece ser maior na variante de São Vicente falada por pessoas com maiores níveis de instrução. As variantes das ilhas de São Nicolau e Santo Antão (Barlavento) seriam absorvidas nesta interdialectização da língua caboverdeana mas a variante de Mindelo exerceria o papel de supracriolização. Contudo, este seria um processo longo tal como foi a transição do Proto-Crioulo até chegar no Crioulo.

No final a adoção da variante/oficialização da língua caboverdeana no país chegaria muito tempo depois da uniformização da escrita da língua caboverdeana que servirá para expressar todas as variantes (incluindo as que foram absorvidas). Até lá vou falando a minha variante na esperança de ser compreendido, mesmo que tenha de repetir a frase algumas vezes.

 

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Dai Varela

Dai Varela

Gestor de Imaginário, Escritor, Produtor Cultural, Gestor de Conteúdos e Coordenador Nacional para Cabo Verde da Iniciativa Africana de Artistas para a Paz - AAPI. Formado em Ciências da Comunicação - Jornalismo e Docente Universitário desde 2012. Com interesse especial pela produção para a infância através da JOVEMTUDO Cabo Verde.

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