Quando fazer a coisa certa nos custa

Há poucos dias ouvindo um sermão de um padre sobre “Nem tudo o que quero me convém” entre tantas mensagens passadas, retive a seguinte: “liberdade não é fazer o que queremos, mas sim fazer o correto”.

Dei por mim a refletir sobre isso, o que tenho feito desde então e confesso estar deveras incomodada com essa frase.

Ao longo da vida somos confrontados inúmeras vezes com o fato de que a liberdade total não existe, uma vez que estamos inseridos numa sociedade e que esta é regida por regras diversas que enformam, condicionam a nossa conduta. A liberdade de fazermos o que queremos é sempre condicionada pelo meio onde estamos inseridos.

No entanto falamos e sentimos que somos livres porque na esfera sob o nosso controlo, a nossa esfera pessoal, sentimos que podemos decidir como comportar com total liberdade. Liberdade aqui entendida como decidirmos apenas com base na nossa exclusiva vontade, independente de tudo o resto que é relevante para nós. O que qualquer adulto sabe não ser verdade.

Ao crescermos vamos sendo confrontados de que a nossa vontade não é motivo suficiente para que adotemos este ou aquele comportamento. As regras nos vão sendo incutidas e como tal vamos entendendo que a tal liberdade (total) não existe.

A liberdade é muito cara aos humanos e como tal é considerada como o bem mais precioso que temos. A capacidade de decidirmos por nós (de pensarmos pela nossa própria cabeça), a possibilidade de nos expressarmos livremente motivou revoluções várias ao longo dos tempos.

Ao refletir sobre a frase “liberdade não é fazer o que queremos, mas sim fazer o correto” consegui entender o incómodo que a frase me tem causado. Esse incómodo advém do fato de que a liberdade só pode/deve ser entendida assim. E como toda rutura (esta de pensamento) machuca, dói. E tem-me doído entender a liberdade nestes termos.

O que queremos é muitas vezes condicionado por situações e emoções, que em regra são passageiros, momentâneos e que podem colocar em causa as nossas decisões, princípios e valores, esses sim permanentes e os realmente essenciais à nossa vida.

As nossas decisões, princípios e valores devem e têm de valer mais do que sentimentos. Os sentimentos variam de dia para dia, de acordo com os nossos humores e sempre ouvimos dizer que “não devemos prometer nada quando estamos felizes ou tomar uma decisão quando estamos tristes”, uma vez que emoções flutuam e não raras vezes decidimos no calor do momento e nos arrependemos. Quando estamos dominados pelos sentimentos a racionalidade perde terreno e como tal não estamos nas melhores condições para decidir, uma vez que a nossa visão do todo está toldada, condicionada pela enchente de hormonas que realmente nos “comandam”.

Não quero com isso dizer que sentimentos são irrelevantes, mas que apenas não devem ser os únicos pesos na balança quando queremos decidir sobre algo permanente. Outros pesos têm de ser chamados à colação e devidamente maturados, respeitando o processo e o tempo.

Acho que um dos aspetos que me tem incomodado mais é ter plena consciência de que fazer o correto não quer dizer que é fácil, que não é desconfortável ou que não dói. Fazer o correto não raras vezes vai contra a nossa vontade imediata e contrariá-la custa, quer a nível mental quer mesmo a nível físico. A nossa mente quer algo com todas as suas forças e fazer o correto significa recusar a dar-lhe o pretendido.

Nestes momentos a forma de irmos aguentando e impedir que a dor nos consuma e que façamos algo irrefletido é focarmos no motivo que nos fez tomar a decisão que agora queremos reverter.

O presente é mais forte pois não teve o desgaste do tempo, não tem as feridas que o passado tem, e como tal o seu efeito imediato é mais poderoso. No entanto com alguma racionalidade, frieza e distanciamento podemos recorrer ao passado, aos motivos que estiveram na base da decisão tomada e aí sim estaremos mais aptos a tomar uma decisão consciente e que reflita a globalidade do que somos.

Além da liberdade, o ser humano preza muito a sua racionalidade, de não agir apenas por impulso, qualidade essa que nos separa dos animais, que gostamos de chamar de “irracionais”, e como tal essa racionalidade não deve ser abandonada quando não nos convém.

A batalha entre fazer o que queremos e o que é correto é diária e sem fim e só posso desejar que todos possamos a cada momento discernir qual é o correto e optarmos por ele, custe o que custar.

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Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

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