Que dezembro seja jamais sinónimo de violência

Época festiva tem sido sinónimo de violência pela nossa terra. Há praticamente dois anos foi o meu pai. Assassinado durante um assalto. Dezembro de 2020. Dezembro jamais terá a mesma luz. O mesmo brio. Apesar de hoje ser mãe de dois e de Natal ser todo ele criança.

O meu pai foi a minha representação masculina desde os 9 anos de idade. Não. Não me pariu.

Pai dos meus 2 irmãos mais novos…

Foi assassinado durante um assalto e o assassinato do guarda prisional, de há tempos, figura-me o dele. Andava ele, também, sempre armado.

O meu pai foi polícia durante toda a minha vida.
59 anos. Recém reformado. Um homem amante da vida e de poucas palavras. Muito poucas palavras. Era também meu padrinho. Queria afinar o fio invisível entre nós.

A minha “basofaria” sempre foi ser filha de polícia. A sensação de proteção era real.

De dezembro de 2020 a junho de 2022 (até o meu reencontro com Deus) vivi a pior fase da minha vida. Uma revolta desmedida. Uma mágoa e insónia em noites perdidas no tempo.

Perdi a luz, o encanto e muito ouvi que estava “agressiva”… Fui até suspensa do trabalho porque precisava de pausa. A dor era palpável. Tresandava.

Não imaginam o quanto.

Conforta os amigos que te ouvem, aturam, e aturam, e compreendem que é só uma fase e ajudam-te a caminhar em direção à luz. A dor era palpável.

A dor ainda é real. Forte. Só a percebe quem perdeu um ente querido. Um pai. E assassinado. A dor é real. Palpável. Perde-se uma vida e com ela várias vidas. A minha ficou durante um bom tempo parada no tempo.

Sou hoje, também, mãe de um rapaz e sinto-o um presente divino. Ainda cheira em mim o sorriso do meu irmão quando lhe contei estar à espera do meu menino. Um ano depois. O meu irmão sofreu, e ainda sofre, com toda a alma. O meu pequeno.

Falou-se muito da forma como morreu e pouco foi sentido que um polícia, um homem, cuja vida foi dedicada à proteção humana, havia sido assassinado. E durante um assalto. 
Um polícia recém-formado. Aos 59 anos de idade.

Precisamos de rever a lei da nossa terra. Urgentemente. Esta tal lei que defende o homem. E mata a sede de justiça de muitos. E mata muitos. A nossa dor é palpável. Há famílias que nunca mais se reencontram.

Não devem saber, mas morre uma vida por assassinato e com ela um bocado de toda a família.

Enquanto isso, procuro a minha essência e a menina amada e leve que sempre fui… pois a dor é palpável. Cheira. Deus foi bondoso comigo. Levantou-me.

Dezembro começa hoje. Sejamos o amor que almejamos para as nossas vidas. Sejamos esta festa que queremos perto. Sejamos a paz. Sejamos, acima de tudo, os pais, os irmãos, a família, os vizinhos que educam. Criam homens.

Somos todos passageiros neste palco que é a vida, mas que possas vivê-la na plenitude. Que a nossa partida seja pela vontade divina e não a do homem.

Que este dezembro seja a paz, o amor e, acima do tudo, momento de união de ver, profundamente, o outro que pisa esta terra que nos formou.

Este texto foi originalmente publicado pela autora a 20 de junho de 2022 nas redes sociais.

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Vandrea Monteiro

Vandrea Monteiro

"Sou a Jacky lá de casa e a primeira barriga da minha mãe.
Quase nada frequentei o pré-escolar, mas as letras misturaram-se aos desenhos ainda cedo para mim. Rabisquei poemas de amor, toda minha infância e agora mulher, escrevo as vidas que me chegam, atuo sobre as escritas dos outros e até canto (desafinada, claro). As palavras fascinam-me tanto. Nas suas mais variadas formas. E não é que elas têm vida? Permita-se."

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