Quebrar o ciclo – escrever a nossa história

backview of girl holding plush toy while walkingon dirt road
Photo by Pixabay on Pexels.com

Quebrar o ciclo – escrever a nossa história

Hoje numa conversa com uma amiga trocando impressões sobre diversos tópicos acabamos por falar sobre o peso que muitas pessoas carregam devido às más experiências que tiveram na infância. Mais concretamente da árdua luta diária que é tentar contrariar aquilo que em nós ficou por termos sido vítimas de abusos físicos e não só. Luta essa que é agravada pelo fato de que aqueles que causaram tanto mal foram os nossos pais que deviam amar e cuidar de nós.
backview of girl holding plush toy while walkingon dirt road
Photo by Pixabay on Pexels.com

Essa experiência traumática na infância pode minar o futuro da criança. Infelizmente, vezes somos confrontados com testemunhos de pessoas sobre a sua infância, as experiências dolorosas que tiveram, a sua luta para sobreviver e ter uma vida “normal”, em que a dor e o sofrimento passado não ditam as regras do seu dia-a-dia atual.

Esta conversa lembrou-me uma palestra que ouvi há uns meses na qual a oradora (cujo nome não retive) falava de que todo aquele que tem uma (grande) dor dentro de si é a pessoa ideal para curar essa dor e quebrar o ciclo de perpetuação do sofrimento. Pois que, ela mais do que ninguém, se lembra desse sofrimento e não deverá querer que os seus filhos passem pelo mesmo.

Ao ouvir a palestra lembrei-me da história de dois irmãos, um alcoólico e outro abstémio, que quando questionados do porquê de serem assim, ambos deram a mesma resposta: “porque o meu pai era alcoólico”. Apesar de ambos terem a mesma motivação para serem como são, cada um escolheu um caminho distinto e oposto do outro. Demonstrando o que vimos advogando em várias crónicas passadas: podemos/devemos ser os autores da nossa própria vida.

É certo que pessoas magoadas magoam outras, contudo, como explicamos que uns optam por perpetuar a violência e outros optam por darem o amor e cuidado que não receberam? Como explicamos que pessoas que sofreram atos inimagináveis de crueldade e dor sejam aquelas que mais transmitem amor? Como explicamos que pessoas com pais amorosos e atenciosos, que tiveram uma infância recheada de amor, não consigam sentir e espalhar amor?

Cada ser humano nasce com a sua natureza, como gostamos de dizer, pelo que duas pessoas vivendo num mesmo ambiente podem ter personalidades distintas, no entanto cremos que o que as vai distinguir seja a sua maior ou menor capacidade de reconhecer e assumir a responsabilidade individual pela sua vida. Bem como da forma como ela se vê: se somente como vítima dos pais/passado ou como dono da sua história.

Se se assumir como vítima dificilmente conseguirá quebrar com as amarras do passado e perpetuará o que sofreu, infligindo dor aos que se encontram na sua esfera de influência. No entanto se entender olhar para o passado como algo que não poderá mudar mas sim aprender para fazer diferente, haverá fortes possibilidades de conseguir dar um fim ao ciclo de violência e falta de amor. Terá de assumir para si, primeiramente, que o que lhe fizeram não é culpa sua e posteriormente, de que pode criar uma história de amor no presente e para o futuro, para si e para os outros.

O ser humano é o único animal que pode conscientemente decidir se transformar, que pode olhar para o futuro e almejar conquistar e criar algo diferente e novo. Para nós humanos existe sempre uma alternativa ao presente que não nos satisfaz: forjar um novo amanhã.

E esse novo amanhã demanda de nós um esforço continuado e permanente. Demanda de nós um compromisso de a cada dia fazermos o que nos compete, não nos deixarmos esmorecer pelas dificuldades que vão aparecendo e que não nos percamos nos desvios do percurso. Podemos sempre recomeçar.

Ao deixarmos para trás o pesado fardo que vimos carregando dentro de nós notamos que ficamos mais lentos no nosso caminhar e devemos permitir que a fé e a esperança sejam o nosso combustível para a jornada que pretendemos empreender.

Que consigamos todos curar as nossas feridas e apaziguar as nossas dores, que elas sirvam somente como lembrete de que sobrevivemos ao que nos aconteceu e que somos bem mais fortes do que julgamos. Que nunca duvidemos da nossa capacidade de nos reinventarmos se tal nos apetecer.

Cada ser humano é único e deverá ser o exclusivo dono da sua história, não permitamos que outros nos substituam nessa tarefa e nos impeçam de escrever a história para a qual nascemos.

Praia, 13 de maio de 2024.

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on pinterest
Adénis Carvalho Silva

Adénis Carvalho Silva

"Filha, mãe, esposa, advogada. Amiga dos seus amigos. Leal, honesta e direta. Uma apaixonada por música, livros e pela escrita. Amante de uma boa conversa e de aprender coisas novas. Em permanente busca de novos desafios."

Outros artigos

Deixe um comentário

Follow Us