Recuar para prosseguir

Recuar para prosseguir

Para quem trabalhava com o que gosta e que tinha uma carreira em ascensão, mudar de país e ter de começar do zero, pode significar estar a poucos quilómetros da depressão.

Ser estrangeiro e procurar emprego num país onde a oferta tem sido cada vez mais escassa, carece de um certo preparo psicológico. Isto porque as empresas preferem contratar os nacionais (isto foi me dito no centro de emprego), do que os estrangeiros.

Já são cinco meses nesta árdua tarefa, num país em que o mercado é totalmente diferente e que apesar de ter realizado a minha licenciatura aqui, o diploma de nada está a servir.

Dos currículos enviados, 10% das respostas são negativas e os outros 90% nem sequer respondem.

Isto, sem falar daquelas empresas que entram em contato contigo através das plataformas de procura de emprego com ofertas duvidosas ou para trabalhos em situações de contratos precários que os nativos não fazem.

Imagino que, ninguém que passou anos a estudar para obter um diploma quer trabalhar em algo que não seja dentro da sua área de formação, mas infelizmente é algo muito comum quando se é estrangeiro.

Quando cheguei a Portugal, mal desfiz as malas, iniciei a árdua tarefa de procurar um emprego começando pelas ofertas dentro da minha área, e nada.

No segundo mês, comecei a baixar a fasquia e a procurar empregos como rececionista, secretária, comercial para lojas de telecomunicações etc, e NADA.

Mais um mês, e costumo brincar e dizer que comecei a ser mais “humilde”.
“Deus eu só quero trabalhar”, pensava e rezava todas as noites. Queria apenas sair de casa para fazer algo.

Nunca soube estar parada, nos meus 30 e poucos anos, sempre fui muito ativa. Enquanto universitária trabalhei em restaurantes e cafés e mal cheguei ao meu país comecei a trabalhar ligada à minha área.

Primeiro numa empresa privada por cinco anos e depois numa instituição pública, tendo criado, em simultâneo, uma empresa prestadora de serviços de assessoria em comunicação e design.

Entre casa, marido e filhos, soube conciliar e exercer muito bem as minhas funções, almejando um futuro promissor, tanto a nível de progressão de carreira como de conquista de novos clientes para a minha empresa.

Quando saí de Cabo Verde sentia que estava num ótimo momento a nível profissional.

Mesmo que muitos pensem que sair do seu país e ir para um outro onde o mercado está mais desenvolvido dentro da sua área, pode significar progressão, não corresponde à verdade.

Hoje considero que foi uma “inércia” para a minha carreira.

Mas não se vitimizar e correr atrás daquilo que se quer pode ser o caminho.

Tenho tentado otimizar o tempo enquanto estou em casa e estudar inglês online, ter tempo para os meus livros, já me inscrevi num programa de voluntariado e a iniciei um projeto que conta a história de emigrantes que estão espalhados pelo mundo.

Muitas vezes é preciso começar do zero? Sim, é, e desistir não é uma opção, principalmente porque as despesas não esperam.

Há dias que acordamos mais desanimados e com vontade de voltar para o nosso país, onde as pessoas conhecem e gostam do nosso trabalho e tem dias que acordamos extremamente positivos e pensamos que somos absolutamente capazes de conquistar este mercado.

Mas em meio disto tudo é preciso tirar lições.

Às vezes um recomeço pode ser importante porque somos obrigados a voltar para trás e adquirir bagagens que se calhar serão significantes para a nossa vida profissional mais à frente.

E às vezes é preciso passar por estes desafios para reconectarmos e conhecer a nossa verdadeira força e perseverança. Alcançar o sucesso exige. Exige trabalho, foco, positividade e porque não, uns dias de choro também.

E como disse o Charles Chaplin, “a persistência é o caminho do êxito”.

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Denise Fernandes Teixeira

Denise Fernandes Teixeira

É esposa e mãe licenciada em marketing turístico e começou a sua carreira profissional como jornalista. Foi assessora de comunicação e marketing numa instituição pública, mas a sua verdadeira paixão é a investigação criminal. Hoje é uma emigrante que se prepara para mudar totalmente de área. A advocacia.

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