Rede de Apoio

Recomeçar de novo num país diferente com uma criança atípica (mas também com uma criança típica) sem família e amigos por perto e principalmente uma rede de apoio para ajudar com o teu filho é uma das coisas mais difíceis, exaustivas e assustadoras que pode acontecer a uma mãe (em alguns casos ao pai).
family gathering for a group hug
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Neste caso não falo de apoio financeiro (que tem a mesma importância e faz com que a falta de outras estruturas de rede de apoio sejam mais sustentáveis), mas sim de uma rede de apoio física e psicológica. 

Apesar de sempre agradecer e louvar quem nos ajuda a cuidar dos nossos filhos, muitas vezes não damos importância a uma rede de apoio até nos vermos sozinhas e sem ela.

No meu caso nunca fui muito de levar o Miguel quando ia resolver os meus assuntos, porque tinha sempre pessoas de confiança para ficar com ele. 

Além disso, desde que o Miguel nasceu sempre me vi rodeada de muito apoio. Por exemplo: só lhe dei o seu primeiro banho depois de um mês. Ao chegar em Angola  sempre tive uma funcionária dedicada ao meu filho e amigos por perto, bem como o pai. 

O mesmo aconteceu em Portugal, não era uma funcionária ou amigos, mas sim os meus familiares e do Miguel que sempre estiveram presentes e fizeram a nossa estadia ser mais fácil.

Mas de repente, por algumas peripécias da vida, vi-me sozinha! Estava sozinha num país que não o meu e sozinha com uma criança que exige muito mais de mim do que uma criança dita “normal”.

Passei neste momento a levar o Miguel para qualquer lugar. Seja para tratar de um assunto mais formal e importante ou até mesmo para um café. No primeiro ano, à excepção das 5 horas em que ele ficava nas terapias eram todas as horas colados um no outro. Até as idas à casa de banho eram compartilhadas porque não tinha coragem de deixar o Miguel sozinho no quarto.

Ah… voltámos a dividir o mesmo quarto e a mesma cama (nunca mais voltei a dormir uma noite inteira sem acordar de madrugada). O Miguel que era uma criança tão independente passou a ser tão dependente de mim que havia dias que eu só queria colocá-lo na cama e ficar num cantinho sem mexer e só desfrutar de um momento de silêncio e de paz.

Para uma mãe sem rede de apoio uma ida ao cinema, um jantar com adultos e outras coisas triviais do dia-a-dia são impensáveis porque não tem com quem deixar o seu filho. 

Lembro-me de ter um dia comentado com o meu primo que queria tanto ir ao cinema, mas que não tinha como e ele dias depois ligou-me “já que a minha mãe está aqui em Portugal, porque é que não vamos ao cinema e ela fica com o Miguel”. Sinceramente já não me lembro nem o nome do filme, mas foi um momento que aproveitei e sem remorsos.

Muitos têm a convicção que eu não precisava estar aqui e que poderia estar em Cabo Verde a desfrutar dessa tal rede de apoio (mãe, irmãos, tias, primas, sobrinhas). Sim, realmente poderia.

Mas, quando olho para o meu filho e vejo os ganhos alcançados nas terapias, algo que ele não teria acesso em Cabo Verde, digo… Vale a pena abrir mão dessa rede de apoio de sonhos que adoraria ter por perto … E faria tudo de novo sozinha, mas sem romantizar esta decisão.

Mas essa tal rede de apoio é importante e necessária para mães, principalmente para mães solteiras ou de crianças atípicas. 

Se não entende ou concorda com as decisões de uma mãe atípica, no mínimo respeite e não dê a sua opinião quando ninguém pedir.

No máximo … ajude da melhor forma que conseguir … fique com a criança um dia, uma noite, umas horas e diga à mãe… Este é o meu presente para ti… O meu tempo para aproveitares o teu, para descansar e cuidar um pouco de ti.

 

Iranita Andrade 

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Iranita Andrade

Iranita Andrade

Profissional com competência em Comunicação, Marketing, Publicidade e Jornalismo. Mas a minha função principal é ser mãe … mãe de uma criança autista. Apaixonada por uma boa conversa e por aprender coisas novas.

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