Refletindo Sobre Formação Política em Cabo Verde

Antes de começar esta reflexão convém realçar que quem vos escreve hoje é a Vandira, Cientista Social e Político, e Cidadã ativa e observadora da realidade Social e Política do seu país.

É setembro de 2021, mais uma eleição se avizinhava. Num jantar de aniversário animado e com muito diálogo e debate à mistura, entre relacionamentos, família, trabalho, estudo, futebol, religião e vida quotidiana, eis que surge uma discussão sobre as eleições que estavam batendo à porta.

Escuta-se de tudo: “os políticos são todos iguais”; “pra quê metermos nisto”; “é tanta corrupção que até dá vergonha”; “só vivem às custas do dinheiro do povo”; “nem sei para quê estão lá”; “dá vergonha ver os debates políticos”, etc. etc.

Neste vai-e-vem intrometo-me e pergunto: – alguma vez pararam para refletir sobre o Poder que vocês, enquanto cidadãos, têm em mãos e não fazem uso dele?

Indignados, a resposta é unânime: – Já vens com discursos para defender os “Políticos”. Eu, ciente na minha convicção respondo: – Não. Não vou defender ninguém, simplesmente digo-vos que a culpa não é totalmente vossa por pensarem assim. Esta culpa é em parte, talvez na sua maioria, atribuída a falta de formação política do Cidadão.

o Cidadão necessita de formação política, para que possa participar de forma consciente e esclarecida na política do seu país

Desde que comecei os meus estudos académicos na área da Ciência Política que defendo e vou continuar a defender que o Cidadão necessita de formação política, para que possa participar de forma consciente e esclarecida na política do seu país. E atenção que quando me refiro a formação política não me refiro a formação partidária – estes são dois conceitos muito diferentes.

Em muitas latitudes, isto já é prática comum nos sistemas de ensino e ouso dizer que se esta prática também fosse adotada por estas bandas conseguir-se-ia facilmente dar resposta assertiva a problemática do alto nível das abstenções; da fraca participação nos processos de recenseamento eleitoral; da fraca participação política etc., uma vez que o Cidadão estaria na posse de conhecimento suficiente e credível para participar e escolher os seus representantes.

A expressão popular: “O Povo é quem decide” está longe de ser um cliché, pois o Povo consciente do poder de decisão e influência que tem, conhecedor dos contornos da política dificilmente toma decisões erróneas.

Muitas vezes atribuímos a culpa de decisões políticas mal tomadas, aos “Políticos”, mas nunca nos questionamos sobre a nossa participação nisto.

A expressão popular: “O Povo é quem decide” está longe de ser um cliché

Se formos mais a fundo nesta questão da participação política consciente, veremos que o que falta ao cidadão é mesmo conhecimento desta área e da sua suma importância, pois se um cidadão aprender desde cedo: a importância do recenseamento eleitoral; o que é a política, quem faz a política e o que significa ser político; quais as ideologias políticas/partidárias que existem; quais são os sistemas de governo e os regimes políticos que existem e como funcionam; o que é a centralização e/ou descentralização política; a importância da separação dos poderes; o papel das eleições; o papel dos Deputados (nacionais e municipais); o que é a democracia; o que é a Constituição da República e a sua relevância; o que é um partido político; a importância das relações internacionais e bilaterais de um país; os instrumentos de governação e gestão da coisa pública; os contornos de uma plataforma política e o peso do voto de cada Cidadão etc etc. muito facilmente consegue decidir e escolher da melhor forma possível o seu representante.

Muitos cidadãos não têm a mínima noção destes conceitos e por isso muitas vezes, e atenção que não é via de regra, acabam por escolher pertencer a um determinado partido político apenas por tradições familiares; vantagens que lhe são oferecidas; por conveniência etc. e não pelo conhecimento profundo das ideologias partidárias.

Neste ponto, e por não ser uma pessoa de extremos gostaria de fazer referência ao outro lado da moeda: muitos cidadãos mesmo na posse de ferramentas de pesquisa, livros e informação não se dão ao trabalho de procurar obter conhecimento e fortalecer as suas convicções. Devemos ter proatividade suficiente para procurar nos auto capacitar para que possamos intervir de forma positiva nos assuntos e decisões políticas, pois deixar que os outros tomem decisões por nós nunca é a melhor opção.

não existe um curso para ser “Político” e por esta razão o Político é um cidadão como outro qualquer

Nós enquanto cidadãos temos o Direito de escolher os nossos representantes e também o Dever de fiscalizar as suas ações e cobrar responsabilidades, e só o conseguimos fazer estando na posse de Conhecimento.

Muitos de vós devem estar a questionar o porquê de eu sempre escrever “Políticos”. Bem, não existe um curso para ser “Político” e por esta razão o Político é um cidadão como outro qualquer, simplesmente lhe concedemos Poder para decidir por Nós nas questões que nos dizem respeito e nos afetam diretamente. Os Políticos estão lá a representar uma ideologia partidária e muitas vezes extrapolam a linha do bom senso. Por esta razão defendo o esclarecimento do cidadão para evitar fanatismos e radicalismos partidários porque acredito que é no debate sobre pontos de vistas diferentes que se fortalece a política e se constrói estratégias de desenvolvimento.

Sou uma Jovem Mulher, Licenciada em Ciências Sociais e Políticas e com formações complementares em diversas áreas de atuação, convém realçar que não me estou a vangloriar disto, e por ter tido a oportunidade, mesmo que tardia, de acesso a formação Política, escolhi ser uma Cidadã ativa e ainda praticar a participação partidária. Sempre tive o interesse nas questões políticas e assumi bastante precoce uma postura de procura contínua por conhecimento nesta área. Diariamente sou confrontada por amigos, colegas e conhecidos com questionamentos tais como: “és deputada municipal?”, “é um emprego?”; “Ganhas um salário?”; “o que faz um deputado municipal?”; “O salário deve ser altíssimo?”, escolheste estar lá?”; “Como faço para ser deputado/a também?”. E quando me deparo com este tipo de questionamentos e deturpações, bem como as que enunciei no início desta reflexão crítica leva-me a reforçar a minha convicção do quão urgente é a necessidade de levantarmos o debate sobe a formação política em Cabo Verde.

Para terminar quero deixar aqui algumas vantagens da Formação política do cidadão para evidenciar a sua suma importância:
– Maior conhecimento dos cargos públicos e suas funções;
– Combate a desinformação nos processos eleitorais e consequentemente a abstenção;
– Desenvolve no cidadão habilidades de empatia, comunicação, tomada de decisão e de trabalho colaborativo;
– Incentiva a participação social, consciente e democrática na política do país;
– Maior esclarecimento do Cidadão sobre temas como partidos políticos, ideologias políticas, sistemas políticos etc.
– Promove um maior entendimento dos processos eleitorais;
– Capacita o Cidadão com ferramentas que o possibilita tomar decisões e fazer escolhas mais assertivas.

Estas são apenas algumas linhas para que possamos juntos refletir pois esta questão é bastante profunda e carece de ser analisada nas suas mais diversas vertentes.

Vandira Brito

Vandira Brito

Considera ser uma jovem dinâmica, engajada e bastante proativa. Licenciada em Ciências Sociais e Políticas pela Uni-CV, é formadora Profissional pelo IEFP do Mindelo e técnica especializada em Gestão Hoteleira e Alojamento pela EHT de Coimbra. Possui formações complementares em Género, intervenção social, educação e gestão financeira, e desenvolvimento, implementação e avaliação de projetos sociais entre outras. Também está envolvida em projetos sociais na área do associativismo juvenil, cidadania e voluntariado.

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