Retrospetiva 2023 no país do faz de conta

Quando me pediram para fazer uma retrospetiva do ano de 2023, tentei escrever algo positivo. Juro que tentei. Eu sou uma pessoa feliz, que gosta de rir e de escrever comédias. Queria escrever um artigo otimista e afirmar que o ano de 2023 foi repleto de coisas boas. Seria bom se as pessoas fossem para 2024 mais felizes, seria ótimo se os problemas que herdamos de 2022 tivessem sido resolvidos este ano. Que bom seria se os cabo-verdianos pudessem entrar em 2024 cheios de esperança.

Se os vossos corações anseiam por algo positivo, nesta época festiva, peço que não leiam este artigo, pois, mais uma vez, terei de cumprir com o meu papel de “mandador de bocas”, a medida em que tento fazer uma retrospetiva do ano de 2023 realista enfatizando os problemas sociais que afligem os cabo-verdianos e que me tiram o sono durante a noite.

2023 não foi um bom ano. As consequências da pandemia ainda fazem-se sentir, a inflação agrava-se a cada dia que passa e somos constantemente atormentados por notícias, relatos e imagens de guerras. Tive a oportunidade de viajar este ano, e, em todos os países que visitei, as consequências da pandemia e a subida generalizada dos preços fazem-se presentes. A crise económica e habitacional que assola Cabo Verde faz-se sentir em Portugal e em Paris. Com isso quero dizer, que apesar de fazer uma análise negativa do ano, não faço apologias ao discurso que promove um Cabo Verde onde reina a miséria e cuja única hipótese de se ter uma vida digna é recorrendo a imigração. Não acredito que a culpa da situação económica que vivemos no país seja da inteira responsabilidade do governo. São vários os países que enfrentam problemas similares. O azeite está caro em todo o lado.

Dito isto, irei focar-me nas problemáticas sociais que afligem Cabo Verde, e nessas questões, apelo à intervenção do nosso governo e daqueles que elegemos para gerir este país de faz de conta.

Refiro-me a Cabo Verde como o país do faz de conta porque parece que vivemos numa distopia. Em qualquer lugar do mundo as pessoas são julgadas por estas 3 coisas na seguinte ordem: aquilo que a pessoa é, aquilo que a pessoa sabe e aquilo que a pessoa tem. Em Cabo Verde essa regra não se aplica, as pessoas são julgadas por uma única coisa, aquilo que aparentam. E por isso, passamos a vida a fazer de conta que somos o que não somos, que dominamos assuntos que desconhecemos e que usufruímos aquilo que não conseguimos comprar. E assim neste país de faz de conta, popularizam-se as sub-celebridades sem talento, os influencers de coisa alguma e os militantes sem causa. Somos bombardeados constantemente nas redes sócias por criadores de conteúdo que não têm conteúdo algum, com discursos bonitos e cheios de nada. Pessoas sem formação alguma tornam-se formadores e abrem “escolas”. Pessoas sem qualquer sensibilidade artista intitulam-se artistas ou “fazedores de arte”. Como se essa palavra (arte) não carregasse em si todo o peso do mundo. Pessoas sem qualquer qualificação ocupam cargos públicos. Fazem de conta que possuem qualificações e que não foi graças a expedientes que conseguiram tais colocações e o povo faz se conta que acredita.

O problema de viver no país de faz de conta é que todos fazemos de conta que não vemos a proliferação do uso das drogas nos bairros. Fazemos de conta que a problemática da prostituição (desde o café na zona ao serviço de acompanhantes de luxo gerido por hotéis e empresas de organização de eventos) não traz consequências gravíssimas no médio-longo prazo. Continuamos a ignorar as questões de saúde mental enquanto o número de suicídios na camada jovem aumenta. A violência sexual de menores é um problema que preferimos fazer de conta que não existe. E a insegurança aumenta porque parece que a polícia faz de conta que trabalha. E assim a vida continua, como se nada fosse, no país de faz de conta.

Quando eu digo que o ano de 2023 foi mau refiro-me a estes problemas que acabei de enumerar, que não surgiram em 2023 apenas se agravaram. Estas contrariedades foram herdadas do ano de 2022 que por sua vez as herdou de 2021 e assim por diante. A cada ano que passa agravam-se.

No país de faz de conta, parece que o tempo não passa. A única constante são estes problemas sociais que se exacerbam a cada ano. São poucas as famílias que conseguem gerar riqueza de um ano para o outro, são poucas as pessoas cuja financeira situação melhorou em 2023. Parece que o cash or body, a prostituição, o número de suicídios, os casos de VBG, a violência sexual contra menores e o uso das drogas são as únicas coisas ma que aumentam de um ano para o outro.
2023 não foi um bom ano, porque não conseguimos resolver os problemas que herdamos de 2022. Na verdade, estes só aumentaram. Mas este foi o ano do rebranding, cash or body passou a ser denominado de “sujou”, a droga que é mais utilizada nas ruas do Mindelo, a famosa pedra, passou a ser chamada de de xtole e a prostituição passou a ser referenciada como horas extras. Os problemas não se resolveram, mas os nomes foram atualizados.

O mais triste no meio disto tudo, é que as pessoas só se preocupam com assuntos banais como celebridades, planos de treino e festas.

A previsão que faço para 2024 é que vamos continuar a viver num país de faz de conta. Teremos um ótimo Carnaval no Mindelo e continuaremos a promover o turismo sexual, o Festival da Baía das Gatas terá um cartaz maravilhoso e os jovens continuarão a consumir narcóticos porque as bocas de fumo continuarão a funcionar a céu aberto. O campo novo acolherá cortejos serrados e um brilhante campeonato enquanto o alcoolismo continuará a proliferar nos bairros, teremos um farto Festival de Cavala enquanto a insegurança alimenta se intensificará no país. E no final do ano teremos um belo Mindelact e um Urdi cheio de criatividade, mas os nossos artistas continuaram a ter dificuldades em tirar sustento da sua arte durante o resto do ano.

Faço minhas as palavras do poeta mindelense e termino a minha reflexão com a seguinte frase: no bibe no fusca, no vesti bnit no ratxa, no kme txeu no ingorda ness fim d one mod ne 2024 no t bem conxe ****

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Nick Fortes

Nick Fortes

Investigador, produtor cultural, ator, encenador, dramaturgo e ativista. Doutorando em Comunicação, Cultura e Artes pela Universidade do Algarve, Mestre em Artes Cénicas pela Universidade Nova de Lisboa e Licenciado em Marketing pelo ISCEE.

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