Revelar o que sentimos é algo que devemos a nós mesmos

Dias há, li algo que me tocou particularmente: um ancião revelou que amou a mesma mulher por mais de 50 anos. Até aqui nada de especial. O que me emocionou foi quando ele afirmou, com aquela voz mansa, sábia e conformada que só a idade legitima, "quem me dera que ela tivesse sabido disso!". Desde então, esta frase não me sai da cabeça. Daí estar agora a escrever sobre o assunto.

Muitas vezes, perdemos verdadeiras oportunidades de ser e estar feliz pelo simples facto de não arriscarmos, de não revelarmos, de não avançarmos, de não expressarmos o que nos vai na alma e no coração. Ou seja, de nada fazermos.

Nos dias que correm, levamos com tantos mind games, esquemas e subterfúgios, que a (verdadeira) arte da sedução e da conquista vai caindo em descrédito, para não dizer em desuso.

Ou porque tememos a rejeição ou porque temos medo da censura dos outros. Ou ainda por insegurança, por timidez, por fantasmas do passado ou pelo simples facto de se gostar de joguinhos, a verdade é que são poucos os que demonstram, sem filtro ou make-up, o que realmente lhes vai na cabeça, no coração e na alma.

O espartilho social e moral é de tal modo apertado que a claustrofobia emocional só tende a aumentar e a tornar-nos reféns de uma realidade que mais não é do que o fruto da nossa mente e das nossas escolhas.

Apesar de não me rever nesses joguinhos, reconheço em mim uma pessoa demasiado contida, muito apegada à ditadura social do que deve ser ou fazer uma mulher decente.
Pouco arrisco, pouco demonstro, pouco revelo, pouco ouso. Quando damos pouco, menos ainda recebemos. Só que a vida não traz garantias de nada, e para nada. Em matéria de amor, menos ainda.

Se te reconheces nestas linhas, presta atenção para não caíres no mesmo erro: em vez de desperdiçares tempo, expectativas, ilusões, suspiros e noites de insónia e solidão, que tal seres aquilo que és e dares-te a conhecer, a querer conhecer o outro, ao invés de te deixares moldar por meras convenções e pensamentos ocos, que só te faz perder tempo, oportunidades e possibilidades?

Não é à toa que somos tão felizes na infância. É nesta altura da vida que ainda não temos desenvolvida a arte do socialmente desejável, da dissimulação, do fingimento, dos joguinhos e das palermices. Éramos o que éramos e verdadeiramente felizes com isso. Portanto, é hora de abrir mão do que não vale a pena e investir no que pode valer. É hora de banir aquela vozinha incómoda, inoportuna e invasiva que não nos deixa, pura e simplesmente, seguir o coração, indo assim atrás do que se deseja.

Se te apetecer dizer “gosto de ti”, diz e pronto. Se te apetecer ligar, liga e pronto. Se for para te declarares, declara e pronto. Se for para abraçares, abraça e pronto. Se for para beijares, então beija.

Como me aconselhou no outro dia uma leitora, mais vale expressar os sentimentos do que chegar a uma altura da vida e pensar “eu podia ter tentado”. E se for para sofrer uma desilusão, olha paciência. C’est la vie! Que eu saiba, não se morre por amor. Essa é a única garantia que temos.

Resolvi ver o mundo de outra maneira. E não foi ele que mudou, fui eu! Aquele abraço amigo de sempre!

* *

Artigo originalmente publicado no blog Ainda Solteira, em 7 de junho de 2016.

Sara Sarowsky

Sara Sarowsky

"Radicada em Lisboa, é blogger, cronista, inspiring talker, cupido profissional, organizadora de eventos e tudo o mais que a desafiar. Por gostar de ser/estar feliz, a sua escrita é recheada de humor e positividade, com uma pitada de sarcasmo pelo meio".

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