Romaria de São João Baptista – A marca de um povo resiliente

Romaria de São João Baptista – A marca de um povo resiliente

No dia 23 de junho de cada ano, uma multidão de fiéis e foliões vai à Ribeira das Patas buscar o Senhor São João Baptista e trazê-lo, em peregrinação, até a cidade do Porto Novo. Assim tinha sido hábito até 2019.

Em março de 2020, a atual pandemia de Covid-19 chegava ao país, condicionando todo o quotidiano do cabo-verdiano, povo muito dado a festas e aglomerações.

Por forma a mitigar o risco de contágio, as autoridades nacionais tiveram que decretar a vigência de Estado de Emergência em todo o território nacional, inicialmente, com confinamento obrigatório da população. As festas de romaria, os festivais de música de verão e demais atividades que promovem aglomeração de pessoas foram cancelados e algumas não se realizaram nos últimos dois anos.

Este ano, graças ao sucesso do programa nacional de vacinação contra o SARS-CoV-2, as festas de romaria e os festivais de verão voltaram a ser autorizados, sem nenhuma restrição, não obstante ainda o vírus continuar ativo entre a população. Uma destas festas de romaria que regressou em força foi o São João Baptista do Porto Novo.

Festas de São João sem peregrinação entre Ribeira das Patas e Porto Novo é a mesma coisa que nada! Este é o ponto alto das festividades que preenchem praticamente todo o mês de junho em Porto Novo. Assim, no dia 23 de junho a multidão pôde finalmente peregrinar de novo o seu Santo Padroeiro.

A romaria começa logo cedo, na Ribeira das Patas, local de residência fixa da imagem do santo, após a missa matinal na capela local. Num percurso de aproximadamente 23 km, a multidão leva, sobre os ombros, o andor contendo o santo “revoltiod” cujo dedo indicador aponta em frente. Numa perfeita simbiose entre o religioso e o profano, os tambores rufam em uníssono e os apitos acompanham, levando as pessoas à dança do “colá sanjon” entre gritos de “oh séb”.

Vários capitães fazem bailar/navegar os seus pequenos navios coloridos por entre o mar de gente, de apito na boca, sempre a acompanhar os tambores. Os rosários feitos de pãezinhos de trigo e fitas coloridas cruzam os ombros e a cintura de vários foliões, dando cor e vida à romaria. Alguns crentes, por cima da roupa, trajam vestes de sacos e seguram adornos feitos de alecrim, creio eu, por forma a pagar alguma promessa feita ao santo.

Quase 7 horas depois da partida e 23 km de caminhada, percorridos debaixo de sol abrasador, uma autêntica prova de fé e devoção ao São João, a multidão de fiéis e foliões alcança a cidade do Porto Novo, ainda com muita energia de reserva para fazer chegar a imagem do santo até a sua residência temporária – a capela de Ribeira de Igreja.

Nesse local, os tamboreiros fazem rufar com mais força os seus tambores, os capitães fazem soar os seus estridentes apitos, levando a navegar por entre a multidão os seus pequenos navios coloridos, enquanto os pares “colam” os seus corpos no “colá sanjon”, sempre acompanhados pelo “oh séb!”. Os fiéis procuram tocar o santo e deixar uma oferenda em dinheiro e/ou velas.

Sendo uma das maiores manifestações culturais de Cabo Verde, as festividades de São João do Porto Novo são, desde 23 de novembro de 2017, Património Cultural Imaterial de Cabo Verde. É preciso agora que se prepare o dossiê de sua candidatura à Património Imaterial da Humanidade junto da UNESCO, tendo em conta a sua relevância mundial para a memória e identidade de um povo que se originou da fusão entre as raças europeias e africanas e povoou ilhas vulcânicas fustigadas por vários períodos de seca e fomes, numa resistência à São João.

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Socram d'Arievilo

Socram d'Arievilo

É natural da ilha das montanhas, lugar que preenche o seu imaginário e que serve de cenário para as suas criações. Na literatura, a sua preferência recai sobre a poesia, mas também interessam-lhe os géneros contos tradicionais e ficção científica.

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