Somos todos solteiros

Perdi a conta às vezes que escrevi sobre a solteirice, não fosse eu aquela que assume a sua situação amorosa com brio, orgulho mesmo. Em cada uma dessas vezes, defendi que ser solteira não tem que ser um drama, a não ser que assim o queiramos. Mais uma vez, volto a frisar que não apregoo a favor do celibato, mas antes a favor do celibato digno e, porque não, feliz.

Na minha primeira crónica aqui no Balai, já lá vão 20 meses, assumi que a felicidade é também ela solteira. A verdade é que é mesmo! Assim como é verdade que somos todos solteiros. Então não somos? Nascemos desemparelhados, morremos desemparelhados, logo somos anatómica, genética e biologicamente soltos.

 

Nesse entretanto, entre o nascimento e o falecimento, vamos emparelhando. Ainda bem que o fazemos, caso contrário nenhum de nós estaria cá, já que é precisamente o “emparelhamento” – seja ele de que natureza for – que permite ao ser humano perpetuar a vida.

A consciência de que somos, de facto e de natureza, solteiros não é tão óbvia quanto deveria ser, já que desde a mais tenra idade nos é incutido a crença de que a vida só faz sentido se for vivida au pair, de que para sermos felizes precisamos de ter um outro alguém. Ora acontece que, precisamente pelo facto da felicidade ser solteira, não “precisamos” de ninguém para nos fazer feliz. O que deveriam ensinar-nos desde o berço é que “queremos” alguém para completar a nossa felicidade, para nos deixar mais feliz e não para nos fazer feliz.

Esse discurso, falacioso e tendencioso, é o principal responsável pelos incontáveis casos de infelicidade conjugal, de pessoas que entram e permanecem em relacionamentos que fazem delas tudo menos pessoas felizes. Ter ou estar numa relação, ou seja ser a (feliz) “titular” de um marido/noivo/namorado/namorido, o que lhe quiseres chamar, não é garantia de coisa nenhuma, menos ainda de felicidade.

Desafio-te a contestar esta minha declaração. A felicidade – minha, tua ou de quem quer que seja – não está afeta a um determinado estado civil ou a uma situação amorosa concreta. Tanto assim é que existem solteiros muito felizes, assim como emparelhados profundamente infelizes.

A constatação da efemeridade das relações amorosas nos tempos atuais, a par da miserabilidade dos relacionamentos existentes, impeliu-me a expandir o meu âmbito de atuação enquanto desencardidora de mentes para assuntos da solteirice, como gosto de me autointitular. Como tal, lancei no início deste mês um programa áudio que visa levar uma palavra amiga a todos aqueles que ainda acusam o constrangimento de ser solteiro.

O podcast Ainda Solteiros foi concebido para dar voz aos corações solitários falantes da língua portuguesa, independentemente do género, orientação sexual, origem ou raça. Os quase oito anos de dedicação a esta causa permitem-me afiançar que a solteirice há muito que deixou de ser uma problemática restringida ao universo feminino. O estar disponível para o (verdadeiro) amor e ele teimar em não se materializar é um drama atual, factual e transversal a todos os géneros e sociedades.

O recém-lançado podcast pretende, deste modo, ser um espaço de partilha de experiências, expectativas, sentimentos e emoções, assente numa conversa descontraída de solteiro para solteiro, sem pudor, tabu ou complexo. Ele está aí para os corações que continuam disponíveis, mas nem por isso imunes às cobranças, constrangimentos, pressões e julgamentos, internos e externos. Como tal, o podcast Ainda Solteiros, filho do blog Ainda Solteira, foi idealizado para trazer esperança e divertimento aos solteiros lusófonos, incentivando-os a assumirem a sua situação amorosa com dignidade, respeito, amorabilidade e leveza.

Porque somos todos solteiros, convido-te a fazer parte deste programa, ouvindo, partilhando, comentando, recomendando, sugerindo, criticando até, e quem sabe aceitando o meu convite para dar a cara por esta causa que é minha e de todos aqueles que estão confortáveis com a sua solteirice.

Aquele abraço amigo e até à próxima!

 

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Artigo originalmente publicado no blog Ainda Solteira, em 7 de junho de 2016.

Sara Sarowsky

Sara Sarowsky

"Radicada em Lisboa, é blogger, cronista, inspiring talker, cupido profissional, organizadora de eventos e tudo o mais que a desafiar. Por gostar de ser/estar feliz, a sua escrita é recheada de humor e positividade, com uma pitada de sarcasmo pelo meio".

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