Tirania da positividade

Arf, “no puedo mas”! Já está mais do que na hora de dar um chega pra lá a esta onda rebuliçosa dos seres amados, cheios de ‘gratiluz, namastes e goodvibes only’. É mindfulness pr’aqui, ho’ponopono pra lá! Mindset positivo, hastag gratidão, hastag plenitude! Happiness ponto com. Vinte e quatro sobre vinte e quatro. Dói-te o rim? Pelo menos tens um! Podia ser pior, não é? Fulana ficou sem o dela e não morreu, não hás-de ser tu quem vai passar mal.

Pensamento positivo que tudo vai ficar pelo melhor! Deu para ver que há algo de muito perverso e perigoso nesta epidemia da positividade que precisa que ser emergencialmente freada?

Entendam bem: ninguém está pr’aqui a dizer que não devemos ter pensamentos positivos, ou muito menos estou a insinuar que devemos romantizar as nossas experiências dolorosas. Esta não é, obviamente, uma apologia à negatividade, ou um elogio à dramaticidade. Manter-se otimista é uma elaboração necessária, um recurso de esperança, uma lente que nos auxilia na contemplação de um caminho para a resolução das vivências atribuladas. Uma inteligência de sobrevivência, portanto. Não obstante, quando equivocadamente utilizada, como por exemplo para nos anestesiar do contacto com as coisas menos ‘gostosinhas’ da vida, ela torna-se tóxica. É isso que está aqui em cheque! O que efetivamente se reprova aqui é esta tal obrigatoriedade normativa de se estar sempre bem, de se ver sempre o lado B das coisas, como num ato uma fuga epicurista a qualquer tipo de abalo.

Eu sei que não é nada fácil quando estamos imersos num ‘ethos’ social neoliberalista que fenomenaliza a busca incessante pela prosperidade e felicidade imediata. É bem difícil quando somos convencidos diariamente que temos de nos desenrascar por nossa conta e risco, na saga pelo sucesso, que demanda de nós os mais duros sacrifícios, os ânimos mais auto heróicos e, claro, muita ‘positivité’! No meio disso, ainda somos levados a crer, com insuspeição, que de facto somos os absolutos donos e senhores dos nossos problemas, quando na verdade existem questões (que não são assunto deste texto) de ordem das estruturas! Assim, cisamos o mundo entre vencedores e ‘loosers’ e ultra-responsabilizamos os indivíduos pelos quesitos que são de um ideal capitalista de viver. Ideal esse que recusa a ideia de fracasso e sofrimento, porque o ‘self-made man’ tem que ser forte, belo e divino, de modo a vencer a luta pelo espólio materialista.

Por isso é que precisamos então de dar um basta neste movimento de jogar para debaixo do tapete, de silenciar e suprimir a manifestação de qualquer sensação e sentimento que estão inventariadas na categoria “negativo”. A bem da nossa saúde coletiva, é preciso travar este esforço em nos colocar em estágios positivos sempre que entramos em contacto emoções desconfortáveis. Parar de nos encher de mantras, criando realidades cor-de-rosa, irrealistas e irresponsáveis!

Todas as emoções servem a um propósito, já que são mecanismos psicofísicos que nos guiam na nossa relação com o mundo e com nós mesmos. Aceitar que dentro de cada um de nós existem vários aspetos, que somos multicompostos, nos dá a liberdade de vivenciar o que somos, inclusive de regular o nosso autoconhecimento.

As emoções são marcadores, temos de aprender a deixar que se manifestem. Diria mais: o que realmente precisamos é ampliar o nosso estado de presença e observação. Afinar a nossa capacidade de detetar o que as nossas emoções nos dizem sobre nós. Com quais crenças estamos identificados? Que padrões moldam as nossas dinâmicas e modos reagir ao mundo? Quais são os aspetos da nossa subjetividade que valem a pena sedimentar, quais os que devemos polir, quais nos fornecem luz em direção ao caminho que pretendemos ir ? A isso tudo chamar de liberdade emocional, que é esta maravilhosa permissão para sentir, integrando todos as nossas facetas emocionais, consentindo que transformações reais ocorram para o nosso amadurecimento humano.

Outra coisa que é bem importante é o reconhecermos e legitimarmos o momento da vida em que vivemos. Há ocasiões vamos estar inevitavelmente em crise. Vamos estar em desamparo, em desintegração. Vamos estar a lidar pela primeira vez com coisas com as quais não possuímos repertório simbólico para mensurar. Vamos ruir! É constitutivo do humano! A tentativa de obliterar certas angústias pode surtir um efeito ricochete, e, inclusive, nos afundar num processo ainda mais doloroso e prologado. Sem falar das somatizações que podem advir de tanta repressão emocional!

Só nós podemos sentir por nós. Cabe a nós e, unicamente a nós, dimensionar os nossos agregados emocionais. Com esta licença, passaremos a aprender a reelaborar e transmutar as experiências. Tudo vai ter sempre a ver com o tempo em que permanecemos em cada estado emocional.

Gente, o IVA pode chegar a 17%! Não são tempos de positividade! São tempos para mobilizar outros afetos …

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Djam Neguin

Djam Neguin

Art-(v)-ista cabo-verdiano e produtor cultural multidisciplinar. Dissidente. Criador de Futuros.

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